Quando eu era criança, em Campinas, havia um ladrão muito famoso no meu bairro. Tínhamos por ele uma mistura de medo e admiração. Embora já estivesse praticamente extinta, a figura do “ladrão romântico” ainda existia por aqui. Diabo Loiro era um deles.
O “ladrão romântico” era o seguinte: ele roubava; mas não roubava pobre e jamais atirava pelas costas. Havia, no meio da bandidagem, um "código de ética" a ser respeitado. Não consta, por exemplo, que Diabo tenha matado alguém ao longo de sua carreira.
O “ladrão romântico” era o seguinte: ele roubava; mas não roubava pobre e jamais atirava pelas costas. Havia, no meio da bandidagem, um "código de ética" a ser respeitado. Não consta, por exemplo, que Diabo tenha matado alguém ao longo de sua carreira.
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Notem como é difícil falar do ladrão da infância sem parecer um libelo ao crime. Mas o fato é que, para a molecada criada em subúrbio, a referência do ladrão do bairro (todo bairro tinha o seu ladrão) era um troço muito forte. Sendo assim, esclareço: se não concordo com os métodos empregados por Diabo Loiro, concordo menos ainda com os métodos empregados pelos bancos que ele assaltava. Dito isto, vamos em frente.
Criado na favela do Fura Zóio, no bairro onde passei a infância, o nome do Diabo Loiro corria nas bocas. Quando jovem, roubava apenas e tão somente joalherias. Achava imoral que madames pudessem gastar pequenas fortunas para obter pedrinhas de brilhantes enquanto tanta gente passava o maior perrengue. Dizia que nada o ofendia mais que o diamante no colo de uma mulher e o ouro nos dedos de um engravatado.
Não que Diabo tivesse muita consciência política. A maior parte do dinheiro arrecadado nos assaltos era usada em benefício próprio. Mas a imprensa campineira registra pelo menos uma passagem memorável envolvendo o ladrão. Na véspera de Natal, em meados dos anos 70, Diabo acertou a mão num assalto e, escoltado pelas sombras da noite, distribuiu envelopes cheios de dinheiro em cada barraco do Fura Zóio.
Para que vocês tenham uma ideia da fama do Diabo Loiro em Campinas, basta dizer que quando comecei a ouvir histórias a seu respeito, o gatuno já havia sumido do mapa. Mesmo assim, era comum ouvir causos mirabolantes a seu respeito. Até hoje, nas periferias da cidade, seu nome é lembrado em conversas de esquina e sua presença é percebida pelos moradores mais antigos, como se ele fosse um egum rondando o bairro.
As várias versões do seu desaparecimento acabaram criando uma lenda. Apesar de os indícios de seu assassinato serem grandes e desta ser a versão oficial da polícia, há quem jure de pés juntos que Diabo Loiro está vivinho da silva, numa fazenda que teria comprado no Paraguai, à espera de seu comparsa Luiz Carlos do Valle, que ainda cumpre pena.
Luiz Carlos tornou-se parceiro do Diabo Loiro quando roubar joias perdeu a graça e muita gente descobriu que assaltar bancos era uma atividade bem mais lucrativa. Se Diabo era a ousadia em pessoa, Do Valle era o cérebro das operações. Juntamente com Hildemax Rita, que atuava como motorista da dupla, cometeram assaltos cinematográficos em dezenas de agências bancárias. Muitas vezes, nem sacavam as armas; valiam-se da lábia e da inteligência.
Como o regime militar ainda mandava no País, muitos desses assaltos foram confundidos com expropriações de fundo político e investigados como tal. Gente da imprensa quis forçar uma associação do trio aos grupos de esquerda, mas a tática não pegou porque os caras eram apenas bons vivants. O resultado dos assaltos garantia uma longa temporada de luxos e prazeres envolvendo mulheres e bebidas nos lugares mais recônditos da América do Sul. Quando acabava a bufunfa, organizava-se outro assalto espetacular.
Ficou célebre o roubo milionário cometido contra a mansão de Pelé, em Santos. Roubar a casa de um dos ídolos mais populares do país foi um erro crucial. Com a mídia marcando em cima o caso, a polícia foi obrigada a trabalhar em dobro e o trio não teve sossego. Luiz Carlos do Valle e Hildemax Rita caíram juntos, anos mais tarde. Diabo Loiro conseguiu dar linha na pipa. Fugir de polícia, aliás, era a sua especialidade.
Do Valle, cuja ficha era mais extensa do que fila em motel na sexta-feira, recebeu uma pena violenta e amargou mais de trinta anos de reclusão. Resta-lhe algo em torno de dois anos para voltar às ruas. Certa vez, tentei entrevistá-lo no presídio. Através de seu advogado, Luiz Carlos disse apenas que estava velho, cansado, doente e que não lhe interessava falar do passado.
Hildemax Rita passou mais de dez anos preso e aproveitou o tempo ocioso para estudar. Em uma entrevista concedida ao Correio Popular, afirmou ter lido dois mil livros na cela. Suas preferências eram obras de Filosofia e Direito. Ao sair da prisão, formou-se advogado, profissão que exerce hoje, paralelamente à de educador em comunidades pobres de Campinas. Na última eleição foi candidato a vereador, mas não conseguiu se eleger.
José Maria Matoso, ou melhor, Diabo Loiro, virou fumaça. A polícia garante ter matado o ladrão numa troca de tiros acontecida na Bahia. Mas seu corpo foi enterrado com o caixão lacrado, o que suscitou a versão de que sua "morte" fora negociada com a polícia. Em seu lugar, outro infeliz teria ido comer capim pela raiz. É o povo quem diz.
Zeza Amaral, jornalista e compositor campineiro, imortalizou a saga do Diabo em uma extraordinária canção. Ele conta a seguinte passagem:
Criado na favela do Fura Zóio, no bairro onde passei a infância, o nome do Diabo Loiro corria nas bocas. Quando jovem, roubava apenas e tão somente joalherias. Achava imoral que madames pudessem gastar pequenas fortunas para obter pedrinhas de brilhantes enquanto tanta gente passava o maior perrengue. Dizia que nada o ofendia mais que o diamante no colo de uma mulher e o ouro nos dedos de um engravatado.
Não que Diabo tivesse muita consciência política. A maior parte do dinheiro arrecadado nos assaltos era usada em benefício próprio. Mas a imprensa campineira registra pelo menos uma passagem memorável envolvendo o ladrão. Na véspera de Natal, em meados dos anos 70, Diabo acertou a mão num assalto e, escoltado pelas sombras da noite, distribuiu envelopes cheios de dinheiro em cada barraco do Fura Zóio.
Para que vocês tenham uma ideia da fama do Diabo Loiro em Campinas, basta dizer que quando comecei a ouvir histórias a seu respeito, o gatuno já havia sumido do mapa. Mesmo assim, era comum ouvir causos mirabolantes a seu respeito. Até hoje, nas periferias da cidade, seu nome é lembrado em conversas de esquina e sua presença é percebida pelos moradores mais antigos, como se ele fosse um egum rondando o bairro.
As várias versões do seu desaparecimento acabaram criando uma lenda. Apesar de os indícios de seu assassinato serem grandes e desta ser a versão oficial da polícia, há quem jure de pés juntos que Diabo Loiro está vivinho da silva, numa fazenda que teria comprado no Paraguai, à espera de seu comparsa Luiz Carlos do Valle, que ainda cumpre pena.
Luiz Carlos tornou-se parceiro do Diabo Loiro quando roubar joias perdeu a graça e muita gente descobriu que assaltar bancos era uma atividade bem mais lucrativa. Se Diabo era a ousadia em pessoa, Do Valle era o cérebro das operações. Juntamente com Hildemax Rita, que atuava como motorista da dupla, cometeram assaltos cinematográficos em dezenas de agências bancárias. Muitas vezes, nem sacavam as armas; valiam-se da lábia e da inteligência.
Como o regime militar ainda mandava no País, muitos desses assaltos foram confundidos com expropriações de fundo político e investigados como tal. Gente da imprensa quis forçar uma associação do trio aos grupos de esquerda, mas a tática não pegou porque os caras eram apenas bons vivants. O resultado dos assaltos garantia uma longa temporada de luxos e prazeres envolvendo mulheres e bebidas nos lugares mais recônditos da América do Sul. Quando acabava a bufunfa, organizava-se outro assalto espetacular.
Ficou célebre o roubo milionário cometido contra a mansão de Pelé, em Santos. Roubar a casa de um dos ídolos mais populares do país foi um erro crucial. Com a mídia marcando em cima o caso, a polícia foi obrigada a trabalhar em dobro e o trio não teve sossego. Luiz Carlos do Valle e Hildemax Rita caíram juntos, anos mais tarde. Diabo Loiro conseguiu dar linha na pipa. Fugir de polícia, aliás, era a sua especialidade.
Do Valle, cuja ficha era mais extensa do que fila em motel na sexta-feira, recebeu uma pena violenta e amargou mais de trinta anos de reclusão. Resta-lhe algo em torno de dois anos para voltar às ruas. Certa vez, tentei entrevistá-lo no presídio. Através de seu advogado, Luiz Carlos disse apenas que estava velho, cansado, doente e que não lhe interessava falar do passado.
Hildemax Rita passou mais de dez anos preso e aproveitou o tempo ocioso para estudar. Em uma entrevista concedida ao Correio Popular, afirmou ter lido dois mil livros na cela. Suas preferências eram obras de Filosofia e Direito. Ao sair da prisão, formou-se advogado, profissão que exerce hoje, paralelamente à de educador em comunidades pobres de Campinas. Na última eleição foi candidato a vereador, mas não conseguiu se eleger.
José Maria Matoso, ou melhor, Diabo Loiro, virou fumaça. A polícia garante ter matado o ladrão numa troca de tiros acontecida na Bahia. Mas seu corpo foi enterrado com o caixão lacrado, o que suscitou a versão de que sua "morte" fora negociada com a polícia. Em seu lugar, outro infeliz teria ido comer capim pela raiz. É o povo quem diz.
Zeza Amaral, jornalista e compositor campineiro, imortalizou a saga do Diabo em uma extraordinária canção. Ele conta a seguinte passagem:
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“Certo dia, eu estou no City Bar e sou abordado por dois homens armados. Eram os seguranças dele. Perguntaram se eu era o Zeza e anunciaram que Diabo Loiro queria ter comigo. Logo depois, ele apareceu, puxou a cadeira, sentou-se e falou: ´É você que fez uma música pra mim? Eu queria que me mostrasse´. Fiquei nervoso, não sabia se ele ia gostar ou não. Mas cantei, batucando no tampo da mesa. Ele ouviu em silêncio e pediu pra eu cantar mais uma vez. Depois levantou, disse que havia gostado muito da música e se foi. Nunca mais o vi”.
A letra de Diabo Loiro segue abaixo. Ela acaba de ser gravada num CD que o batuqueiro Ding Dong dedicou aos compositores de Campinas. Quase quarenta anos depois de ter sido composta, a música ganha sua primeira gravação.
Diabo Loiro
(Zeza Amaral)
Foi num feriado de pobre,
anuviado
Num domingo entardecido
No bairro do Fura Zóio,
hoje Tofanelo
Diabo Loiro era procurado
Por quatro viaturas
Cheias de metralhadoras
E de soldados
E na fuga alucinada
Fugindo da cachorrada
Arrebentou vários varais
Quebrou telha, coisa rara
Fez goteira, coisa velha
Um pingo a mais que ninguém ia notar
Interrompeu uma pelada pelo meio
E salvou um passarinho que no susto escapou do alçapão
Enquanto a torcida berrava: “Foi por ali”
Caminho oposto ao do ladrão
Novamente, Diabo Loiro, perdendo o canivete
Mas ganhando a liberdade que era de estimação
No dia seguinte vai ser manchete pra vender jornal
Na social de ladrão
Jejuados, os bons tempos se passaram
E nem o próprio tempo consegue lembrar
Diabo Loiro maltrapilho e sujo
Se entregou de fome
Como faz todo ladrão
Dizendo que a bala não fere tanto
Quanto a saudade e a solidão
E assim trocou sua vida de gato
Pela vida de cachorro comportado na prisão
Pensão de ladrão
Atualmente ele cumpre penitência na cadeia
Comendo muito mais do que amassou
Porém, Diabo Loiro resistiu, não deu serviço
Com garrancho a promissória de bandido assinou
Que vai ser saudada com juros e sova
Restos de comida e toco de cigarro
Assim, portanto, de outro modo vou chamá-lo
Pois quem sofre o que ele sofre
É santo e não diabo
1 pitacos:
Uau, adorei! Só hoje pude ler e fiquei fascinada! Parabéns, um belo texto, querido!
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