domingo, 6 de julho de 2008

REI ZULU DA CASA VERDE

Qualquer coisa que se escreva será pouco para dizer do dia de ontem, em São Paulo. Foram incontáveis as garrafas de cerveja enxugadas na companhia de Fernando Szegeri, Arthur Favela e Leonor Macedo – a noite terminou com esta mesa forte, no bar Sabiá, lá pelas duas e meia da manhã. Mas três destas garrafas merecem um comentário especial, pois foram consumidas naquele que passamos a considerar o “melhor boteco do universo”: o Bar do Zulu.
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Quem melhor definiu o sentimento que nos tomou de assalto, ao entrarmos no carro do Favela depois da breve biritagem, foi meu mano Szegeri, canário da roda de samba que acontece no Ó do Borogodó, aos sábados. Atrasadíssimo (os músicos o esperavam com paciência de monge) e com lágrimas brotando dos olhos enormes, disse a frase definitiva, que resume tudo: “Foi a maior meia hora da minha vida”.
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Quando a Rua Dobrada começou a ficar para trás, depois de nossa visita, Favela passou a repetir seguidamente: “É o maior ser humano do mundo! O maior do mundo!”, se referindo ao Zulu. Emocionadíssimos, juramos voltar – promessa que haverá de se cumprir.
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Fui apresentado ao bairro da Casa Verde (estávamos ao pé do morro), que só conhecia dos sambas de Adoniran Barbosa. Mas, como só quem é da área pode falar com autoridade sobre a alma do lugar, deixo-lhes as impressões do Favela, contidas em crônica publicada no ano passado sob o título Dobrada ás Avessas:
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“Até hoje não cheguei à conclusão se o que me fascina ali é a Rua ou se são os Bares. Porque a Rua, essa sim – e mais até que os bares –, tudo nela me comove; o movimento de veículos quase zero, se não fosse pelos freqüentadores dos dois pés-sujos; entre os sobrados, casas humildes sem nenhum acabamento, com tijolo à vista; criançada de pé no chão empinando pipa, jogando bola e soltando balão chinesinho; jovens batendo papo em volta de uma fogueira no meio da rua, inevitavelmente dividindo um garrafão de vinho vagabundo; e a morena mais linda de toda a zona norte. Tudo isso junto me causa - particular subjetivo - um súbito arrebate em que regresso pra não sei quando”
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Favela sempre me disse: “Ninguém pode morrer sem conhecer a Casa Verde, Brunão; quanto mais você, um suburbano nato”. Como a Barra Funda tem sempre razão – meu amigo é a Barra Funda em pessoa – não ousei discordar. Há meses que ruminava o meu desleixo e tentava me programar para curtir uma tarde vagabunda no território do grande Arthur Tirone - a Barra Funda e a Casa Verde, bairros irmãos e praticamente fundidos. Deu certo. "O homem que não ama o próprio bairro, é um canalha", disse Favela, assim que passamos diante da quadra da Camisa Verde e Branco, a escola de samba do seu coração.
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Antes de seguir o relato, um parêntesis: demoramos uma eternidade para chegar ao Bar do Zulu, pois, em cada esquina que passávamos, Favela era saudado efusivamente pelos moradores: velhinhas, em cadeiras nas calçadas, acenavam; os bêbados de mil botequins erguiam seus copos americanos em sinal de reverência; as moças suspiravam e lançavam beijos em sua direção (meu amigo é um cara bonito, não se pode negar); os malandros paravam para falar de futebol ou pedir palpites para o jogo do bicho; velhos conhecidos se aproximavam, feito pombos em volta do milho... Houve até uma queima de fogos (que atribuí à sua chegada!). Favela parecia um político em época de campanha, tal a quantidade de apertos de mão e abraços que distribuiu a caminho do Bar do Zulu. “Uma coisa impressionante”, cochichou o Szegeri em meu ouvido.
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Pois bem, o Zulu. O peso do apelido em nada diminui o do nome: Antônio Carlos Apolinário. O encontramos numa mesa, jogando cartas com os clientes - o mais novo segurou Paulo Vanzolini no colo. Favela comenta: “Coisa rara é vê-lo atrás do balcão, tarefa que abomina”. Nos recebeu enchendo o copo de cachaça (que parece ter nascido com ele, feito um dedo extra) e mandando descer as Brahmas, na mesinha de plástico branco da calçada - ocupada imediatamente por nós. O sol paulistano, naquele começo de tarde, estava agradabilíssimo.
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Pena não termos registrado, em fotos, aquele momento de pura epifania: os raios de sol vazando por entre os galhos das árvores caíam sobre a mesa e emprestavam uma iluminação teatral para a cena: éramos quatro cavalheiros celebrando a vida no palco do botequim. E da melhor maneira: vadiando, simplesmente. Vadiar por vadiar - algo de que muita gente se envergonha...
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Zulu, negrão forte, gordo e careca, tem tal magnetismo que todas as coisas passam a orbitar em seu redor quando ele se senta. Bastou que viesse à mesa, do lado de fora do bar, para que as atenções se voltassem para ele e não mais para o Favela – para vocês terem uma idéia do poder de sua presença (até um pardal, que catava migalhas de pão no meio-fio, parou ao lado da mesa para admirar o homem; o passarinho passou longos minutos olhando-o como quem olha um deus ou um baobá. Depois voou, assustado com o arrôto estrondoso do Zulu).
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O tempo de três cervejas foi, me parece, todo o tempo do mundo. Tempo suficiente para ouvirmos histórias de infância, sarjeta e preconceito (carregadas de simplicidade e sabedoria ancestral) e sentirmos todas as emoções percorrendo as coronárias. Ríamos desbragadamente. Lá pelas tantas, Fernando Szegeri ameaçou chorar – não de rir, mas de comoção. Pareceu-lhe doce e pura a malandragem do Zulu, verdadeira entidade. Eu então disse ao Favela: “Vamos fechar a conta; se o homem da barba amazônica começa a chorar, não vamos embora hoje”.
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Prontamente, enxugamos os copos. Zulu nos apresentou seus dois únicos funcionários, que resgatou da rua: "Um que sabe escrever e outro que sabe ler". Fernando era o mais preocupado com o horário, pois havia rumores de que o Rei da Nigéria – isso mesmo, o Rei da Nigéria em carne e osso – faria uma visita ao samba do Ó. “Seria uma ofensa chegar depois do Rei; e ainda por cima bêbado!”, justificou a si mesmo.
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O altivo e nobre Zulu, que provavelmente descende de um rei africano, compreendeu a nossa encruzilhada. Assentiu, sem nos deixar pagar, e, sentado em seu trono, gritou para um freguês, que também ameaçava bater em retirada: “Ô fulano! Cadê a pinga que eu lhe pedi? Traga mais uma pinga e depois vá embora! E não se faça de surdo, hein!”.
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Eis, senhoras e senhores, o momento mais sublime daquela tarde: o dono do bar, impávido, sendo servido pelo próprio freguês. Depois de deitar o primeiro gole ao chão, para o Senhor dos Caminhos, Zulu virou a amarelinha numa só talagada, estalou os beiços, entregou o copo vazio ao sujeito (que saiu resmungando alguma coisa) e disse com aquela elegância que só o subúrbio tem: “Não gostou? Vai dar o cu pra lá!”.
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O que se seguiu depois, não importa. O samba no Ó do Borogodó estava quente, o Rei da Nigéria apareceu com sua comitiva e foi aplaudido de pé pelos bebuns do bar. Para nós três, porém, a majestade de Zulu ofuscava qualquer iminência. Tínhamos acabado de beber com um rei africano, na singela Rua Dobrada. O Rei Zulu da Casa Verde.
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Leia mais sobre o Zulu:
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Uma entidade chamada Zulu, no blog do Favela
Entrando na surra, no blog do Favela

4 pitacos:

Rodrigo disse...

Bruno, eu não sei o que dizer ou melhor escrever. Estes textos relatando estes botequins, me deixam comovido tamanho a grandiosidade ali presente.

Abraço

Arthur Tirone disse...

Brunão, este texto - antológico - estará, em poucas horas, nas mãos do homem. E não haveria melhor data para você e Szegeri estarem lá. O dia em que a presença de um Rei nigeriano revelou a majestade do Zulu. Única "patente" possível para um homem com tamanhas destrezas.
Beijo, mano! E logo mais tem a volta aí na tua casa.

Anônimo disse...

Querido, adorei o texto...creio que pensem que eu sou a mais suspeita pra falar, já que convivo vom você todos os dias e conheço o seu potencial, e como sempre, tudo que você escreve é sensacional! Pelo visto foi bom eu ter sentido saudade, já que você aproveitou muito o passeio com os seus queridos amigos, conheceu muitas pessoas novas e interessantes (até eu senti vontade de conhecê-lo) e ainda aproveitou "horrores". Muito sucesso pra você, pois sei que o seu sucesso é o meu sucesso, e vice-versa. Te amo!
Mari.

Szegeri disse...

Texto magnânimo, meu camarada. Em todos os sentidos. E, acima de tudo, preciso do início ao fim.