Qualquer coisa que se escreva será pouco para dizer do dia de ontem, em São Paulo. Foram incontáveis as garrafas de cerveja enxugadas na companhia de Fernando Szegeri, Arthur Favela e Leonor Macedo – a noite terminou com esta mesa forte, no bar Sabiá, lá pelas duas e meia da manhã. Mas três destas garrafas merecem um comentário especial, pois foram consumidas naquele que passamos a considerar o “melhor boteco do universo”: o Bar do Zulu..
Quem melhor definiu o sentimento que nos tomou de assalto, ao entrarmos no carro do Favela depois da breve biritagem, foi meu mano Szegeri, canário da roda de samba que acontece no Ó do Borogodó, aos sábados. Atrasadíssimo (os músicos o esperavam com paciência de monge) e com lágrimas brotando dos olhos enormes, disse a frase definitiva, que resume tudo: “Foi a maior meia hora da minha vida”.
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Quando a Rua Dobrada começou a ficar para trás, depois de nossa visita, Favela passou a repetir seguidamente: “É o maior ser humano do mundo! O maior do mundo!”, se referindo ao Zulu. Emocionadíssimos, juramos voltar – promessa que haverá de se cumprir.
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Fui apresentado ao bairro da Casa Verde (estávamos ao pé do morro), que só conhecia dos sambas de Adoniran Barbosa. Mas, como só quem é da área pode falar com autoridade sobre a alma do lugar, deixo-lhes as impressões do Favela, contidas em crônica publicada no ano passado sob o título Dobrada ás Avessas:
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“Até hoje não cheguei à conclusão se o que me fascina ali é a Rua ou se são os Bares. Porque a Rua, essa sim – e mais até que os bares –, tudo nela me comove; o movimento de veículos quase zero, se não fosse pelos freqüentadores dos dois pés-sujos; entre os sobrados, casas humildes sem nenhum acabamento, com tijolo à vista; criançada de pé no chão empinando pipa, jogando bola e soltando balão chinesinho; jovens batendo papo em volta de uma fogueira no meio da rua, inevitavelmente dividindo um garrafão de vinho vagabundo; e a morena mais linda de toda a zona norte. Tudo isso junto me causa - particular subjetivo - um súbito arrebate em que regresso pra não sei quando”
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Favela sempre me disse: “Ninguém pode morrer sem conhecer a Casa Verde, Brunão; quanto mais você, um suburbano nato”. Como a Barra Funda tem sempre razão – meu amigo é a Barra Funda em pessoa – não ousei discordar. Há meses que ruminava o meu desleixo e tentava me programar para curtir uma tarde vagabunda no território do grande Arthur Tirone - a Barra Funda e a Casa Verde, bairros irmãos e praticamente fundidos. Deu certo. "O homem que não ama o próprio bairro, é um canalha", disse Favela, assim que passamos diante da quadra da Camisa Verde e Branco, a escola de samba do seu coração.
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Antes de seguir o relato, um parêntesis: demoramos uma eternidade para chegar ao Bar do Zulu, pois, em cada esquina que passávamos, Favela era saudado efusivamente pelos moradores: velhinhas, em cadeiras nas calçadas, acenavam; os bêbados de mil botequins erguiam seus copos americanos em sinal de reverência; as moças suspiravam e lançavam beijos em sua direção (meu amigo é um cara bonito, não se pode negar); os malandros paravam para falar de futebol ou pedir palpites para o jogo do bicho; velhos conhecidos se aproximavam, feito pombos em volta do milho... Houve até uma queima de fogos (que atribuí à sua chegada!). Favela parecia um político em época de campanha, tal a quantidade de apertos de mão e abraços que distribuiu a caminho do Bar do Zulu. “Uma coisa impressionante”, cochichou o Szegeri em meu ouvido.
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Pois bem, o Zulu. O peso do apelido em nada diminui o do nome: Antônio Carlos Apolinário. O encontramos numa mesa, jogando cartas com os clientes - o mais novo segurou Paulo Vanzolini no colo. Favela comenta: “Coisa rara é vê-lo atrás do balcão, tarefa que abomina”. Nos recebeu enchendo o copo de cachaça (que parece ter nascido com ele, feito um dedo extra) e mandando descer as Brahmas, na mesinha de plástico branco da calçada - ocupada imediatamente por nós. O sol paulistano, naquele começo de tarde, estava agradabilíssimo.
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Pena não termos registrado, em fotos, aquele momento de pura epifania: os raios de sol vazando por entre os galhos das árvores caíam sobre a mesa e emprestavam uma iluminação teatral para a cena: éramos quatro cavalheiros celebrando a vida no palco do botequim. E da melhor maneira: vadiando, simplesmente. Vadiar por vadiar - algo de que muita gente se envergonha...
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Zulu, negrão forte, gordo e careca, tem tal magnetismo que todas as coisas passam a orbitar em seu redor quando ele se senta. Bastou que viesse à mesa, do lado de fora do bar, para que as atenções se voltassem para ele e não mais para o Favela – para vocês terem uma idéia do poder de sua presença (até um pardal, que catava migalhas de pão no meio-fio, parou ao lado da mesa para admirar o homem; o passarinho passou longos minutos olhando-o como quem olha um deus ou um baobá. Depois voou, assustado com o arrôto estrondoso do Zulu).
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O tempo de três cervejas foi, me parece, todo o tempo do mundo. Tempo suficiente para ouvirmos histórias de infância, sarjeta e preconceito (carregadas de simplicidade e sabedoria ancestral) e sentirmos todas as emoções percorrendo as coronárias. Ríamos desbragadamente. Lá pelas tantas, Fernando Szegeri ameaçou chorar – não de rir, mas de comoção. Pareceu-lhe doce e pura a malandragem do Zulu, verdadeira entidade. Eu então disse ao Favela: “Vamos fechar a conta; se o homem da barba amazônica começa a chorar, não vamos embora hoje”.
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Prontamente, enxugamos os copos. Zulu nos apresentou seus dois únicos funcionários, que resgatou da rua: "Um que sabe escrever e outro que sabe ler". Fernando era o mais preocupado com o horário, pois havia rumores de que o Rei da Nigéria – isso mesmo, o Rei da Nigéria em carne e osso – faria uma visita ao samba do Ó. “Seria uma ofensa chegar depois do Rei; e ainda por cima bêbado!”, justificou a si mesmo.
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O altivo e nobre Zulu, que provavelmente descende de um rei africano, compreendeu a nossa encruzilhada. Assentiu, sem nos deixar pagar, e, sentado em seu trono, gritou para um freguês, que também ameaçava bater em retirada: “Ô fulano! Cadê a pinga que eu lhe pedi? Traga mais uma pinga e depois vá embora! E não se faça de surdo, hein!”.
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Eis, senhoras e senhores, o momento mais sublime daquela tarde: o dono do bar, impávido, sendo servido pelo próprio freguês. Depois de deitar o primeiro gole ao chão, para o Senhor dos Caminhos, Zulu virou a amarelinha numa só talagada, estalou os beiços, entregou o copo vazio ao sujeito (que saiu resmungando alguma coisa) e disse com aquela elegância que só o subúrbio tem: “Não gostou? Vai dar o cu pra lá!”.
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O tempo de três cervejas foi, me parece, todo o tempo do mundo. Tempo suficiente para ouvirmos histórias de infância, sarjeta e preconceito (carregadas de simplicidade e sabedoria ancestral) e sentirmos todas as emoções percorrendo as coronárias. Ríamos desbragadamente. Lá pelas tantas, Fernando Szegeri ameaçou chorar – não de rir, mas de comoção. Pareceu-lhe doce e pura a malandragem do Zulu, verdadeira entidade. Eu então disse ao Favela: “Vamos fechar a conta; se o homem da barba amazônica começa a chorar, não vamos embora hoje”.
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Prontamente, enxugamos os copos. Zulu nos apresentou seus dois únicos funcionários, que resgatou da rua: "Um que sabe escrever e outro que sabe ler". Fernando era o mais preocupado com o horário, pois havia rumores de que o Rei da Nigéria – isso mesmo, o Rei da Nigéria em carne e osso – faria uma visita ao samba do Ó. “Seria uma ofensa chegar depois do Rei; e ainda por cima bêbado!”, justificou a si mesmo.
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O altivo e nobre Zulu, que provavelmente descende de um rei africano, compreendeu a nossa encruzilhada. Assentiu, sem nos deixar pagar, e, sentado em seu trono, gritou para um freguês, que também ameaçava bater em retirada: “Ô fulano! Cadê a pinga que eu lhe pedi? Traga mais uma pinga e depois vá embora! E não se faça de surdo, hein!”.
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Eis, senhoras e senhores, o momento mais sublime daquela tarde: o dono do bar, impávido, sendo servido pelo próprio freguês. Depois de deitar o primeiro gole ao chão, para o Senhor dos Caminhos, Zulu virou a amarelinha numa só talagada, estalou os beiços, entregou o copo vazio ao sujeito (que saiu resmungando alguma coisa) e disse com aquela elegância que só o subúrbio tem: “Não gostou? Vai dar o cu pra lá!”.
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O que se seguiu depois, não importa. O samba no Ó do Borogodó estava quente, o Rei da Nigéria apareceu com sua comitiva e foi aplaudido de pé pelos bebuns do bar. Para nós três, porém, a majestade de Zulu ofuscava qualquer iminência. Tínhamos acabado de beber com um rei africano, na singela Rua Dobrada. O Rei Zulu da Casa Verde.
O que se seguiu depois, não importa. O samba no Ó do Borogodó estava quente, o Rei da Nigéria apareceu com sua comitiva e foi aplaudido de pé pelos bebuns do bar. Para nós três, porém, a majestade de Zulu ofuscava qualquer iminência. Tínhamos acabado de beber com um rei africano, na singela Rua Dobrada. O Rei Zulu da Casa Verde.
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Leia mais sobre o Zulu:
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Uma entidade chamada Zulu, no blog do Favela
A primeira vez num salão da raça, no blog do Favela
Entrando na surra, no blog do Favela
4 pitacos:
Bruno, eu não sei o que dizer ou melhor escrever. Estes textos relatando estes botequins, me deixam comovido tamanho a grandiosidade ali presente.
Abraço
Brunão, este texto - antológico - estará, em poucas horas, nas mãos do homem. E não haveria melhor data para você e Szegeri estarem lá. O dia em que a presença de um Rei nigeriano revelou a majestade do Zulu. Única "patente" possível para um homem com tamanhas destrezas.
Beijo, mano! E logo mais tem a volta aí na tua casa.
Querido, adorei o texto...creio que pensem que eu sou a mais suspeita pra falar, já que convivo vom você todos os dias e conheço o seu potencial, e como sempre, tudo que você escreve é sensacional! Pelo visto foi bom eu ter sentido saudade, já que você aproveitou muito o passeio com os seus queridos amigos, conheceu muitas pessoas novas e interessantes (até eu senti vontade de conhecê-lo) e ainda aproveitou "horrores". Muito sucesso pra você, pois sei que o seu sucesso é o meu sucesso, e vice-versa. Te amo!
Mari.
Texto magnânimo, meu camarada. Em todos os sentidos. E, acima de tudo, preciso do início ao fim.
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