Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Da arte de beber e conversar

O hábito de reunir-se para beber e bater papo faz parte da História da Humanidade. Exemplo: foi ao redor de uma mesa e cercado de amigos que Cristo consagrou o vinho e o pão. Notem, portanto, que o ato de beber vem acompanhado de uma boa conversa desde priscas eras.
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Sabemos, porém, que este costume universal tornou-se parte corriqueira da vida do homem a partir do surgimento do primeiro botequim. O botequim é única e exclusivamente aquele estabelecimento feito para beber e conversar. Nas mesas dos profissionais, a boa conversa é facilmente percebida: o papo flui e os temas vão se sucedendo naturalmente, liberando os espíritos. Já uma mesa ocupada por amadores é rapidamente identificada: paira sobre eles uma certa monotonia: o grupo é dominado por silêncios constrangedores e o papo não anda.
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O momento mais animado na mesa dos amadores é quando alguém comenta a respeito do clima: “Será que chove hoje? Está fazendo um calor insuportável”. Há quem consulte o relógio, visivelmente arrependido de estar bebendo numa hora daquelas. O amador sempre acha que poderia estar fazendo coisa melhor. Trabalhando, talvez.
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Todavia, com que graça e desenvoltura nascem conversas nas mesas dos profissionais! O cronista Paulo Pellota dizia que as mesas dos bares que ele frequentava eram “fantásticas cornucópias” de onde brotavam os melhores assuntos: “Médicos falam sobre direito, advogados tratam de medicina, empresários palpitam sobre música, músicos discutem política, vagabundos pontuam sobre direito do trabalho, em desordem alternada, podendo mudar o ponto de vista a qualquer momento”. No boteco, a lógica e a coerência podem perfeitamente ficar do lado de fora.
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Mas tudo na vida exige treino e dedicação. É dever do profissional aprimorar sua conversa e abordar temas originais que surpreendam os amigos com seu bom humor e criem no ambiente uma atmosfera própria, plena de um entusiasmo que acabará por contaminar a todos.
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É indispensável, pois, que se beba. Até na Santa Ceia todos se sentaram à mesa e tomaram vinho. O único que não quis beber foi embora mais cedo, bem sóbrio, receber os trinta dinheiros.

Terça-feira, 14 de Julho de 2009

RAPIDINHAS

Soube, recentemente na mesa do bar, que a Fábrica de Chapéus Cury, um dos patrimônios de Campinas, localizada a poucas quadras de minha casa, foi ou está para ser vendida à uma construtora. Estranhei a informação, até porque o prédio quase centenário foi tombado, no ano passado, pelo Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (Condepacc). Buscando confirmar a informação na internet, encontrei o comentário de um funcionário da empresa, falando justamente sobre isto numa matéria sobre o tombamento. Segundo o funcionário, que assina como Juarez, o boato da venda do imóvel está correndo nas fileiras da fábrica. Este botequim pequeno e sujo, mas honesto, acompanhará de perto a questão, para que não ocorra nenhum dano ou crime contra o patrimônio cultural da cidade. Se alguém tiver informações seguras a respeito, peço a gentileza de entrar em contato para que eu possa articular alguma coisa por aqui.
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Na semana passada, o jornal britânico Financial Times estampou, na manchete de capa: “O Brasil passa dançando pela crise”. Retranca: “Após anos de promessas não cumpridas, o Brasil está chamando a atenção mundial e sugando investimento estrangeiro direto, enquanto muitos rivais ficam sem nada”. E finaliza: “Se as conversas sobre recuperação fazem sentindo em algum lugar do mundo, é no Brasil, um líder emergente mundial na agricultura, mineração, petróleo e dono de um mercado doméstico que os concorrentes nem podem sonhar”. Que o governo Lula tem sido um sucesso retumbante, todo o mundo sabe. Menos, é claro, a imprensa brasileira, que há tempos vem ignorando solenemente a credibilidade internacional que o País tem conquistado.
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Coisas realmente incompreensíveis:
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1. Gente que ainda cai no golpe do bilhete premiado. Toda semana, em Campinas, alguma velhinha perde toda a sua aposentadoria para um estelionatário. Todos sentem pena, menos eu. E por uma razão muito simples: as pessoas que caem nesse tipo de golpe são, sempre, vítimas da própria ambição. Pensam que estão se aproveitando da ingenuidade de um caipira simplório e tornam-se, de certa forma e por ironia, cúmplices do manjado 171. Eu teria vergonha de dar queixa na polícia.
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2. O meu surpreendente Guarani, saco de pancadas de todos os campeonatos disputados nos últimos, vá lá, dez anos, segue invicto na dianteira do Campeonato Brasileiro da Série B. Hoje enfrenta o “freguês” Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Se ganhar, terá atingido uma marca histórica neste torneio, superando a campanha do Corinthians em 2008. É por essas e outras que o futebol – e a macumba, a macumba! (e mais não digo) – continuam sendo duas instituições fascinantes e inseparáveis, por mais que o mercado milionário da bola tenha alterado (para pior) o estilo brasileiro de jogar o esporte bretão e instalado em nossos dirigentes e craques uma mentalidade estritamente empresarial, a negação escancarada de nossa brasilidade. O Brasil, contudo, resiste nos bastidores, como mamona em terreno baldio.
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Aliás, sobre o estilo brasileiro de jogar futebol, vinculado diretamente à nossa “mulatice”, assistam a entrevista que o Sportv realizou com o meu amigo e professor Luiz Antonio Simas, dono do melhor blog destas plagas:
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Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Brasileiros honrados

O Memorial da Resistência, na Estação Pinacoteca, em São Paulo, está localizado no espaço onde funcionou o sinistro DEOPS (popularmente conhecido por Dops), o aparelho repressivo criado por Getúlio Vargas que serviu, mais tarde, a ditadura militar pós-64. Ali, muitos brasileiros foram torturados e mortos.
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Daniel Brazil, leitor bissexto deste botequim, teve a grata ideia de filmar a inauguração do Memorial, mesmo sem ter verba para isso. Com a ajuda de amigos da VIATV, que aceitaram participar voluntariamente da cobertura, foram colhidos depoimentos de alguns brasileiros honrados que lutaram, com armas ou palavras, contra a opressão.
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Poucos memoriais no mundo dedicados aos perseguidos políticos serão tão completos quanto este. O Museu do Holocausto, em Israel, é o mais emblemático. Em Buenos Aires, destaca-se um prédio da marinha que funcionou como centro de tortura até ser transformado num centro de memória em 2004. Nele, constam centenas de depoimentos gravados sobre o período da ditadura.
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Palavras de Daniel: “O Memorial da Resistência está apenas começando. Com o material na mão, percebemos que tínhamos ainda muito pouco. Gravar entrevistas no meio de um evento é complicado, tem muito barulho e o ambiente é dispersivo. Mas, conversando com os organizadores do Memorial, percebemos que este pouco era fundamental para que eles divulgassem o projeto e angariassem mais recursos”.
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A memória está se perdendo. Os mais velhos já partiram, levando parte da história. Antes que alguns comecem a acreditar que houve no Brasil uma “ditabranda”, é bom ver e ouvir com os próprios olhos. Aqui está o vídeo. Não substitui de forma alguma uma visita ao Memorial, entrar nas celas, passar a mão nas paredes, ouvir os depoimentos de ex-presos políticos. Mas é um pequeno passo.
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Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Bergson Gurjão: Presente!

A Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República anunciou, na noite de ontem, que foi identificada a ossada do guerrilheiro Bergson Gurjão, militante comunista executado na Guerrilha do Araguaia em 1972. A ossada foi encontrada no cemitério Xambioá, em Tocantins.

Bergson Gurjão Farias morreu aos 24 anos de idade. Era cearense, natural de Fortaleza, e desapareceu em 1972, lutando contra os soldados da ditadura na selva do Araguaia. Estudante de Química da Universidade Federal do Ceará, Bergson era militante do Partido Comunista do Brasil (PC do B) e amava o Brasil. Segundo relatos de militantes que lutaram ao seu lado, o guerrilheiro foi o primeiro combatente civil a ser morto pelo exército. Seu corpo teria sido amarrado numa árvore e perfurado a golpes de baioneta.

Meu irmão, meu camarada:
Hoje é um dia para ficar na memória de todos os brasileiros honrados. Depois de tantos anos, depois de tanto silêncio, eis que seu nome emerge do lodo, eis que seus restos mortais ressurgem das cinzas, eis que seu exemplo imorredouro desponta no lume da estrela. Hoje é tempo de render homenagens àqueles que caíram por nós, pela liberdade, pelo povo. Hoje é tempo de brindar aos irmãos brasileiros, aos homens e mulheres que deram suas vidas pela pátria, que sacrificaram sua juventude na selva enquanto muitos compatriotas dormiam o sono dos céticos ou nem haviam nascido. Obrigado, para todo o sempre, mano Bergson. Que a bandeira vermelha e negra das valorosas Forças Revolucionárias se curve diante de ti.

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

O samba é meu dom (para Roberta Valente)


Para minha querida Roberta Valente, amiga de copo, a dona do pandeiro, amante e defensora do samba, que faz aniversário hoje. Vida longa à esta grande brasileira!

Sábado, 4 de Julho de 2009

Os bares da moda e a sanha dos covardes

Na semana passada, um estudante de medicina, juntamente com um amigo, agrediu a socos e pontapés um homem, um trabalhador, que passou por eles e teria pedido um cigarro - na versão dos vermes - ou, na versão do agredido, feito um comentário sobre o jogo do Brasil, que havia acabado de ser campeão da Copa das Confederações. O trabalhador, que esperava o ônibus em frente ao shopping Ventura Mall (ponto de encontro da playboyzada no alto do Nova Campinas), teve dentes quebrados, fraturas e escoriações múltiplas. Pessoas que passavam pelo local, anotaram a placa do carro dos agressores. Na delegacia, um dos vermes justificou a selvageria dizendo ter "confundido a vítima com um mendigo" (já vimos esta história antes). O outro, que se pretende médico, disse que o homem apanhou porque "não acrescentaria nada para a sociedade, no futuro".
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Eis porque bato sempre na mesma tecla e manifesto meu repúdio quando leio ou ouço que a violência é patrimônio de uma determinada classe social. A violência parte dos pobres. Os ricos apenas se defendem. Não é assim que nos querem fazer pensar? No entanto, nunca - com ênfase szegeriana - presenciei uma só cena de agressão gratuita nos butecos da periferia de Campinas. Pelo contrário. A gentileza e a educação sempre - também com ênfase szegeriana - foram as marcas destes lugares. Lugares tantas vezes repelidos pela classe média alta; tantas vezes tratados pelo senso comum como antros de marginais ou locais de alta periculosidade... Também por isso não frequento, nem fu, os abjetos bares da moda espalhados pelo Cambuí e adjacências.
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Em nome da coerência que sempre pautou este blog, meu querido irmãozinho Arthur Tirone, o Favela, que saiu da Barra Funda para conhecer o Bar do Fifi, na minha mui amada Vila Teixeira, poderia deixar aqui a sua resposta para a seguinte pergunta: Mano velho, qual a chance de presenciarmos, no Bar do Fifi ou no finado Bar do Zulu, uma cena como esta registrada na reportagem abaixo? PS: O texto da matéria não entrega o nome do bar (por que será?), mas sabemos que a coisa se passou no Cambuí. Onde mais poderia ter sido?
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O aposentado José Valter Tozzi, de 52 anos, mostra indignação e dificuldade para se refazer do drama de ver Um dos filhos quase morto por conta de um brutal espacamento em uma briga de bar no bairro Cambuí, em Campinas. Ele só pensa na recuperação do filho, o técnico em telecomunicações Ricardo Tozzi, de 27 anos, e a condenação dos possíveis agressores. “Meu primeiro objetivo é ver meu filho saudável, sem sequelas dos ferimentos. O segundo é fazer justiça contra os agressores. Eles não podem ficar impunes”, disse.
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A agressão ocorreu na semana passada, mas ainda é difícil para Tozzi falar sobre o assunto. Ao lembrar das condições do filho, o aposentado chora. Ricardo sofreu traumatismo craniano e teve de passar por uma cirurgia de emergência para retirada de um coágulo na cabeça. “Vivemos agora na esperança de que ele se recupere bem e que não tenha sequelas, que possa voltar ao convívio normal, a trabalhar e a viver”, afirmou o pai.
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Em menos de uma semana, dois casos de agressão gratuita foram registrados em Campinas. Na madrugada da última segunda-feira, o auxiliar de produção Marcelo Vieira da Silva, de 38 anos, foi agredido por pelo menos dois estudantes, um deles de medicina. A Polícia Civil investiga os dois casos.
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O técnico em telecomunicações estava em um bar com o irmão, o técnico em eletrônica Rafael Tozzi, de 24 anos, quando começou a confusão. Segundo a versão de Rafael, um rapaz — identificado como Gustavo Vannucci Torres, de 18 anos — após lhe pedir duas vezes uma cerveja, não gostou de ter o pedido negado e o agrediu com um empurrão e um soco na boca. “Caí no chão e percebi que o soco tinha quebrado três dentes. Meu irmão (Ricardo) foi me defender, sendo agredido pelo Gustavo (Torres) e por um amigo dele”, contou Rafael em depoimento à polícia.
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ORKUT
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O inquérito aberto pela delegada Denise Florêncio Margarido para investigar o caso conta com o perfil dos possíveis agressores — Gustavo Vannucci Torres e Renan Carrara Cardoso —no Orkut, conhecida página de relacionamentos na internet que tem sido ferramenta útil nas investigações policiais. No documento, tanto Torres quanto Cardoso mantêm comunidades que fazem apologia à agressão física. Torres, por exemplo, pertence à comunidade Um soco vale + Q 1000 palavras, enquanto Renan pertence às comunidades Eu apanho mas não corro!!! e Eu sou bom de briga!.

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

O TERRORISTA, ELE OBSERVA

A bomba explodirá no bar às treze e vinte.
Agora são apenas treze e dezesseis.
Alguns terão ainda tempo para entrar; alguns, para sair.
O terrorista já está do outro lado da rua.
A distância o protege de qualquer perigo.
E, bom, é como assistir a um filme.
Uma mulher de casaco amarelo, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Jovens de jeans, eles conversam
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele mais baixo, ele se salvou, sai de lambreta.
E aquele mais alto, ele entra.
Treze e dezessete e quarenta segundos.
A moça ali, ela tem uma fita verde no cabelo.
Mas o ônibus a encobre de repente.
Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Era tola o bastante para entrar, ou não?
Saberemos quando retirarem os corpos.
Treze e dezenove.
Ninguém mais parece entrar.
Um careca obeso, no entanto, está saindo.
Procura algo nos bolsos
e às treze e dezenove e cinqüenta segundos
ele volta para pegar suas malditas luvas.
São treze e vinte.
O tempo, como se arrasta.
É agora.
Ainda não.
Sim, agora.
A bomba, ela explode.
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(Wislawa Szymborska)

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Um festival de poses

Tenho fugido, como o diabo da cruz, de ambientes dominados pela pose. Isto explica, por exemplo, meu sumiço de bares que eu costumava freqüentar (não abolirei o trema!). Vira e mexe, na rua, encontro conhecidos que me fazem o mesmíssimo comentário: “Está sumido, hein?”. E eu, obedecendo a lógica do troço, respondo sempre igual: “Sumi não, estou por aí, quem sumiu foi você”. A conversa então se arrasta por dois ou três minutos, o meu conhecido tergiversa sobre o trabalho ou sobre o casamento, e logo estamos seguindo nossos rumos, cada um para o seu lado.

Há coisa de três ou quatro anos, talvez cinco, dei-me este presente: romper com lugares desprovidos de humanidade ou que negam o Brasil, por preconceito ou babaquice. Como os ex-butecos (que viraram “cult” e passaram a ser freqüentados por um público que antes tinha nojo de lugares como estes). Em Campinas, os ex-butecos crescem num ritmo alucinado. Está virando moda beber em pé-sujo. O problema é que, quando freqüentado por um tipo de gente que não está habituada às regras de civilidade destes ambientes, a casa acaba se adaptando à esse tipo de gente (é a força da grana!), fazendo com que seu público antigo e fiel perca o seu único refúgio. Descaracterizado, o ex-buteco sobe o preço da cerveja, promove reformas que descaracterizam o prédio, acaba com a pendura (até para os clientes mais velhos), as mulheres passam a ser alvo de cantadas, brigas ocasionais acontecem, enfim, perde-se o clima de clube. Mesmo as conversas, nas mesas, mudam de tom. O ambiente é dominada por uma atmosfera consumista e o excesso de alegria que acaba afastando o boêmio triste e solitário, que antes ficava no seu cantinho, tomando seu conhaque em silêncio, esperando a aproximação de um ombro solidário e conselheiro.
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Também estão incluídos no meu pacote de idiossincrasias os bares da moda (aqueles que abrem e fecham com a mesma rapidez, se orgulham das filas e dos seguranças na porta), bares de grife (que se orgulham de sua clientela elitizada), festas temáticas (mania babaca da nossa classe média), baladas de música eletrônica, vernissages, intervenções teatrais etc. A lista é interminável.

Outra coisa que não me pega mais: projetos culturais. Se o sujeito me convidar para conhecer um “projeto”, invento uma desculpa e não vou. Roda de samba, pra mim, só no quintal de casa ou no buteco freqüentado pelo povo do bairro (buteco, enfim, que não saiu na coluna da revista Metrópole e continua desfrutando as delícias do anonimato). Busco ser, o mais que possível, um homem de hábitos simples, cercado apenas de boas pessoas.

Raramente saio de casa para ouvir música em barzinho, pagar couvert, enfrentar fila, essas coisas. A revelação pode magoar os meus amigos músicos, que afinal vivem disso; mas esclareço que o meu problema não é com a música, mas com a pose que paira, como nuvem de enxofre, sobre estes ambientes. Há exceções, é claro, mas prefiro não dar nomes, para não queimar a língua. Tudo isso para lhes dizer que começa hoje a FLIP. E para recomendar a leitura do texto do Eduardo Goldenberg. É isto, exatamente isto, o que eu penso sobre a pose:

Começa hoje, quarta-feira, em Paraty, a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty). Dirão vocês que já venho eu disposto a falar mal de mais um evento. Acertaram. Implico com a FLIP desde a primeira edição. Quando li FLIP nos jornais, lembro-me bem, disse de mim para mim:
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- Feira de Livros de Paraty.
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Quando li que não era uma feira, mas uma festa - emburrei.
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Tenho profunda implicância com essas festas.
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Nem cheguei a lhes contar (faço brevíssima digressão) mas no começo do mês estive, por absoluta impossibilidade de não-estar, na festa junina promovida pelo Banco da Providência no JOCKEY CLUB, na Gávea. Meus poucos mas fiéis leitores, fui um triste do instante em que pisei na dita festa ao instante em que de lá (aliviadíssimo) saí. Assim que atravessei uma fila de Fla X Flu (eu já tinha o convite), dei de cara com um - tirem as crianças da sala - "lounge caipira". Dezenas de pufes de couro branco com dezenas de meninos e meninas vestindo roupas de grife, bonés com as abas pra trás e tênis os mais reluzentes, estirados e à vontade no tal "lounge caipira" eram o cartão de visita para quem, como eu, se aventurava à festa chamada (tirem, mesmo, as crianças da sala!) "ROÇA IN RIO". Notem a anti-brasilidade permanente. E era o que eu queria lhes contar sobre o (pausa para o pigarro e a golfada imaginários) evento: não havia ali, naquela centena de metros de quadrados, uma mísera sombra de Brasil. Fui ao uísque assim que cheguei (eu precisava de algo para me manter, digamos, sob controle). Passei por uma fogueira patética de cartolina e papel celofane fazendo o papel do fogo. Dezenas de pessoas formavam fila (outra, outra) para uma foto diante do horror. Deu-me uma aguda saudade das festas juninas de minha infância, muitas delas no CLUBE 34, em Campo Grande. A criança estava, entretanto, dentro e apenas dentro de mim. Os robôs que circulavam atônitos à minha volta não sabiam, eis a verdade, nada sobre o Brasil, nada sobre São João, nada sobre Santo Antônio, nada sobre nossas mais bonitas tradições. Prova cabal do horror coletivo (eu, careta, me perguntava a cada cinco minutos pelos pais daquelas moças de - o quê?! - 14, 15, 16 anos, semi-nuas e de mãos dadas, umas com as outras, e vi beijos de moça com moça, de moças-meninas com rapazes nem-tanto, e ouvi conversas que me quebraram a alma, e nem mesmo as três doses de Red Label sossegaram meu periquito) foi o seguinte: em determinado momento (acho que eram onze da noite) começou o funk. E aquela horda, que torcia o nariz com boquinha de nojo pras canções tradicionais das festas juninas que tocavam através de gravações horríveis em altíssimo volume, foi à pista e eu fui pra casa arrasado, com o menino que fui, de calças curtas e chapéu de palha, enterrado em mim. Dito isso, volto à FLIP.
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O que haverá de hoje a domingo na fabulosa cidade de Paraty?
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Pose. Pose. Pose.
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Posso garantir a vocês que haverá gente desse tipo (como li n´O GLOBO de hoje). Pausa: eu poria a imagem da notícia aqui para vocês verem e lerem, mas parece que por represália de membros do PSOL, revoltados com o que tenho escrito, não consigo mais acessar o site do jornal na íntegra (eu tinha uma senha que não funciona mais). Vejam:
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"Gay Talese bateu pé e mudou de pousada assim que chegou a Paraty. Tudo por conta do guarda-roupa, que era pequeno e não comportava os seis ternos e as muitas camisas. O escritor mais elegante da Flip, que é filho de um alfaiate, exigiu um espaço maior para pendurar organizadamente suas roupas..."
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Quem gosta de livros elege sua livraria do coração, lá compra seus livros e os lê (eu tinha a minha, deixei de ter por obra e graça de uma pérfida atitude que não cabe aqui). Mas compro meus livros por aí e os leio em silêncio - e os releio, troço muito mais importante que a simples primeira leitura.
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O povo que vai à FLIP babar o ovo do filho do alfaite, por exemplo, vai apenas para exibir sua pose e engrossar a cambada de pavões em flor que interdita a cidade histórica.
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Disputam ingressos para "as mesas". "As mesas" é como são chamados, pelos descolados que para lá se deslocam, os geralmente insuportáveis debates literários onde o espirro de um romancista tem o peso de um grande sertão. Dou-lhes um exemplo: em recente entrevista, a escritora irlandesa Edna O'Brien disse (essa frase genial...):
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- Escrever é como sonhar.
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Se essa senhora repetir a mesmíssima enfadonha frase em Paraty a baba da estupefação ignorante escorrerá do queixo dos descolados que aplaudirão, numa explosão histérica, esse lugar-comum.
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Correm pra lá e pra cá com seus livros debaixo dos braços, os descolados, em busca de um autógrafo, de uma fotografia, de um momento de falsa intimidade com o escritor.
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De hoje a domingo, meus poucos mas fiéis leitores, Paraty será a capital nacional da babaquice.Muita gente, muita pose, muita festa - aposto que quase nenhum leitor.
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Até.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Diário de Viagem - Parte III

Depois de 40 minutos deslizando, de barco, sobre as águas gélidas do círculo polar ártico, cheguei à ilha onde seria realizada a tradicional festa do sol da meia-noite, na cidade lapona de Rovaniemi, extremo norte da Finlândia. À meia-noite do dia 18 de junho, e com o céu ainda claro, acende-se uma grande fogueira sobre uma estrutura flutuante no rio. É, simbolicamente, a chegada oficial do solstício de Verão, comemorado pelo povo finlandês como se fosse uma final de Copa do Mundo. As pessoas se abraçam, cantam e dançam músicas folclóricas. A celebração guarda semelhanças com a nossa festa de São João. Para quem passa o inverno na mais completa ausência de sol e sob o castigo de temperaturas que chegam a 20 graus negativos, o verão tem mais é que ser comemorado mesmo!
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Resquícios de neve acabaram virando atração turística no local (e isso porque estamos em pleno verão!). As pessoas faziam fila para fazer bolas de neve com as mãos e tentar acertá-las dentro de latas de leite, estrategicamente colocadas uns metros à frente. Os finlandeses, sobretudo, levavam a brincadeira à sério. Talvez seja uma tradição no país. Eu, particularmente, não vi graça nenhuma na coisa e preferi apenas posar de turista. Minha mãe me mataria se eu voltasse sem uma foto na neve.

O cãozinho acima, acomodado em local privilegiado, não faz parte dos hábitos alimentares do povo finlandês. Mas os latino-americanos presentes na festa chegaram a levantar a possibilidade de o pobre virar salsicha ali mesmo. Isso porque, pouco antes, participamos de uma degustação de carnes nobres. De rena e de urso.

Aí estão as verdadeiras salsichas finlandesas, assadas na fogueira. Não me perguntem do que são feitas. Certas coisas, na vida, melhor não saber.
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A rena é a base da alimentação finlandesa. Come-se rena de tudo quanto é jeito. Nos dias mais frios, toma-se uma sopa de nome impronunciável, feita com carne de rena moída e uns quantos tipos de queijos. O troço é revigorante, mas é do restaurante para a cama. Essa menina lapona ficou a festa inteira segurando a rena. Conversei um pouco com ela (com a moça, não com a rena). Curiosamente, Maria - será este o nome dela, meu Deus? - falava muito bem espanhol.

Cravei a bandeira do Brasil no cume da geleira mais alta que encontrei e fui embora. A viagem, a festa, a Finlândia, as coisas todas são maiores do que esse brevíssimo relato. Ocorre que não tive paciência para escrever um texto à altura neste boteco sujo. Certas coisas devem ser simplesmente vividas e absorvidas. A série Diário de Viagem valeu apenas como registro fotográfico. Interessados em conhecer o país, entrem em contato por e-mail. Kiitos!

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Diário de viagem - Parte II

No cais do porto de Helsinki acontece, diariamente, uma excelente feira. Além das barracas de artesanato e antigüidades, pode-se encontrar comidas típicas feitas na hora e até os bebuns de sempre, loucos de vodka às sete da manhã. Feira é feira em qualquer lugar do mundo e na Finlândia não seria diferente. O cheiro de peixe predomina, pois os barcos pesqueiros não param de chegar do mar para abastecer as bancas e o mercado velho (cuja arquitetura mourisca, ao fundo, lembra muito a do Mercado Municipal de Campinas). Na foto acima, este senhor negocia batatas, outro alimento fundamental na cozinha finlandesa.

O mercado velho de Helsinki foi, de longe, o meu lugar preferido durante a viagem. Foi lá que eu, finalmente, pude me sentir em casa. Fundado em 1889, o prédio continua impecavelmente preservado até os dias atuais. Bebe-se muito - e bem - ali dentro, já que quase todos os boxes vendem cervejas, vodkas e vinhos. Na banca acima, provei um delicioso carpaccio de rena. Ao meu lado, um homem se divertia com um salame de carne de urso, mas a ideia não me apeteceu.

Os petiscos fizeram a minha alegria. Há uma variedade incrível de tira-gostos disponível. Você escolhe o boxe onde vai tomar a primeira cerveja do dia a partir da oferta dos acepipes, que são vendidos por peso. Em alguns lugares, o freguês pode fazer o próprio prato, combinando até quatro tipos de comidinhas.

Os finlandeses são apaixonados por peixes, sobretudo por sardinhas e arenques. Os peixes secos e defumados também têm grande saída. Gostei sobretudo do herring, ou white fish, que acompanha de forma inigualável uma garrafa bem gelada de cerveja. Ou melhor, não muito gelada, pois na fria Finlândia o costume é servir a bebida na temperatura ambiente.

Os camarões, tenros e graúdos, são um show à parte. Luiz Antonio Simas, grande entusiasta destes saborosos bichos do mar, certamente teria jogado sua âncora nesta bodega, tivesse ido em meu lugar. Depois tem mais.

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Diário de viagem - I

Conhecer a Finlândia nunca esteve entre os meus planos. Mas, um dia, meio bêbado, caí num site e participei de uma promoção qualquer. Dias depois me ligaram, dizendo que eu tinha ganhado uma viagem de cinco dias com acompanhante para Helsinki, capital finlandesa, e Romanievi, na Lapônia. Eu, que até então só havia ganhado rifa de frango assado em buteco, achei tudo muito engraçado. Juro - e não tenho motivos para mentir - que voltei ao Brasil sem saber qual foi a frase que escrevi para ter ganhado esta promoção.
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Como Mariane não conseguiu liberação do trabalho para poder viajar comigo, levei meu irmão Samuel, a única pessoa cujo sonho era conhecer aquele fim de mundo. A viagem foi bastante demorada. Partindo de São Paulo, com escala em Frankfurt, até Helsinki, foram cerca de 15 horas de vôo. Chegamos no início do verão, quando o sol nunca se põe por aquelas bandas. Mesmo assim, a temperatura local ficou por volta de 11º.C durante todo o tempo. Com vento, a sensação térmica é ainda mais baixa. No inverno, quando os termômetros registram até 20 graus negativos, é praticamente impossível andar pelas ruas geladas do país.
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A capital Helsinki me pareceu muito bonita, embora lhe falte um pouco de vida. A segurança, a limpeza e a organização da cidade chamam a atenção de quem vem de países caóticos. Por outro lado, a formalidade é excessiva e não deixa ninguém à vontade. O finlandês tem muita dificuldade de conviver com pessoas estranhas no mesmo ambiente e é trabalhoso puxar papo com um morador local. Além disso, o comércio abre muito tarde (antes das 10h é difícil encontrar um café aberto) e a maioria dos bares fecha muito cedo. Depois das 22h é difícil, pra não dizer impossível, continuar bebendo despreocupadamente. Se o próprio estabelecimento não encerrar o serviço, a polícia o fará.
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Não é que não exista boemia na Finlândia, um país onde se bebe consideravelmente. O problema é que a "boemia" só pode ser exercida em casas noturnas fechadas, ao som de música eletrônica, ou nos porões afastados do centro, onde a juventude bebe até cair nos shows de heavy metal. O conceito de bar, tal e qual fazemos no Brasil, não existe para o povo finlandês. Quem não gosta de beber em ambientes ruidosos tem a opção de comprar cerveja e vodka nos supermercados e ir para casa beber sozinho. Entende-se porque a Finlândia é o país com o maior índice de suicídios no mundo.
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Fiquei hospedado num hotel quatro estrelas cravado no centro da capital, entre um cassino e um museu. Numa rua lateral encontrei uma boa cervejaria, cujo nome agora me foge. Foi o único lugar que me permitiu beber até um pouco mais tarde. O problema era a carta de cervejas, caríssima! Nenhuma garrafa saía por menos de 7 euros, ou seja, cerca de R$ 21. Mesmo assim, me permiti algumas extravagâncias. Eu e César Adames, jornalista brasileiro que conheci no hotel, elegemos como saideira a forte e encorpada Rasputin, holandesa própria para ser degustada sob baixas temperaturas. A garrafa, porém, custava "módicos" 26 euros, algo em torno de R$ 78. A vantagem: uma única garrafa bastava para sairmos, os dois, alegres e satisfeitos.
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Quando descobri que eu não era o único latino-americano convidado da Vodka Finlândia (no mesmo hotel estavam hospedados hermanos da Argentina, Uruguai, Chile, Venezuela, Colômbia, México, Panamá, Porto Rico e El Salvador) fiquei muito animado. Éramos praticamente a OEA andando pelas ruas da Finlândia. Detalhe curioso: eram nossas as únicas risadas que se ouviam na capital. Quando entrávamos num bar ou restaurante, os poucos clientes locais pagavam a conta e iam embora. Acho que não suportavam o barulho que fazíamos, mesmo sem querer. O finlandês é extremamente discreto e silencioso. E nós, latino-americanos, o oposto disso tudo.

Depois escrevo mais, continuem acompanhando.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Direto da Finlândia - Parte II

Caros,

dentro de algumas horas embarco de volta para o Brasil. Não me foi possível escrever como gostaria, mas na semana que vem publicarei um breve diário de viagem, seguido de fotos.

Adianto, aos leitores etílicos, que não encontrei os bares finlandeses de que tanto me falaram. Há boas cervejarias em Helsinki, mas nenhum bar que se compare aos que frequentamos em Campinas, Tijuca ou Barra Funda. Aliás, o conceito de botequim não existe na Finlândia.

O melhor lugar para se beber e comer por aqui - eu diria o único! - é o Mercado Municipal, perto do porto, onde se pode encontrar de tudo um pouco: de carpaccio de rena à salame de carne de urso, sardinhas deliciosas, azeites, vinhos dos mais preciosos, camarões gigantes, pães de todos os tipos, pessoas interessantes para jogar papo fora e a única - a única! - cerveja realmente gelada da cidade. Adivinhem onde foi que joguei minha âncora.

Tenho fotos, evidentemente.

Estou chegando.

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Direto da Finlândia

Caros,
é verão na Finlândia, mas a temperatura não passa dos 11 graus desde que cheguei. Como venta muito por aqui, parece que o frio é ainda maior. Helsinki, a capital do país, é uma cidade muito bonita e organizada, mas lhe falta um pouco de vida. As pessoas não saem de casa, digamos, para se divertir. O comércio está sempre vazio. Ontem, entrei num shopping center no centro da cidade - estava atrás de um cartão telefônico - e todas as lojas (repito: TODAS) estavam às moscas. Não havia um único cliente por lá.
O mesmo se passa com os poucos bares que encontrei pela frente: sempre vazios. Os que conseguem preencher meia dúzia de mesas, fecham as portas mais tarde, ou seja, lá pelas dez da noite. Às onze é praticamente impossível beber em Helsinki, a não ser que você esteja atrás dos shows de heavy metal que superlotam os porões do circuito underground. Como não gosto de rock, tenho tido dificuldades para beber por aqui.
E isso sem falar no custo das cervejas - caríssimas! Um copo de chopp, por exemplo, não sai por menos de 5 euros, o que dá cerca de 15 reais. Para ficar bêbado aqui eu teria que gastar mais de 100 reais por dia, o que seria inviável. Além do mais, a cerveja é servida na temperatura ambiente. O que para nós, que gostamos de cerveja gelada, acaba sendo um pouco intragável.
O povo finlandês é muito gentil, mas bastante reservado. O silêncio impera por toda a parte. Ontem, fui jantar na zona portuária com um grupo de latinos que conheci aqui - além de brasileiros, éramos venezuelanos, argentinos, mexicanos, porto-riquenhos, colombianos, chilenos e salvadorenhos. Como fizemos barulho demais nas mesas, os finlandeses que ocupavam as mesas mais próximas acabaram indo embora, pouco a pouco. As únicas risadas que escutei por aqui foram as nossas.
Estou aqui há três dias e não ouvi uma só buzina na rua. Os carros andam devagar, quase parando. A primeira pergunta que eu me fiz quando vi o trânsito do lugar foi: "Afinal, onde estão as pessoas?". Há poucos carros circulando nas ruas - o que achei ótimo - e uma quantidade razoável de bicicletas ocupadas por executivos de gravatas e belas louras e outras louras não muito belas. A beleza e a feiúra da mulher nórdica, aliás, são igualmente exageradas: ou as mulheres são muito bonitas ou muito feias.
Por aqui come-se peixe cru (arenque) com molho de tomate pela manhã. Pode parecer ruim à primeira vista, mas achei delicioso. Bebe-se apple juice em quantidades industriais. E carne de rena é obrigatória no meio da tarde, nos barbecues feitos ao ar livre. Isso quando o tempo permite, é claro.
Depois mando mais notícias, na medida do possível, das primeiras impressões. Hoje tratarei de buscar pelos bares na parte do centro de Helsinki que ainda não percorri. Fotos colocarei quando chegar ao Brasil. Até!

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

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Este botequim está temporariamente fechado e sem prazo para reabrir suas portas. Embarco, no sábado, para a gelada Finlândia, depois de ganhar uma promoção maluca de uma marca de vodka. Passarei uma temporada em Helsinki e outra em Kittila, na Lapônia. Hoje me assalta uma vontade irresistível de não dizer nada. Se a volta me permitir novos ares, escreverei sobre as impressões do frio. Por hora, agradeço aos freqüentadores fiéis que me fizeram companhia, ainda que silenciosa, nesses anos todos.

Sábado, 6 de Junho de 2009

O livro da minha vida

O texto que se segue, com pequenas modificações, foi publicado originalmente no meu antigo blog Pátria Futebol Clube.
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O livro que mais marcou a minha infância foi Os Meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnar, sobre o qual já escrevi aqui. Ontem tirei o dia para reler esta pequena obra-prima da literatura universal. Nenhum livro poderá ocupar o seu lugar em minha vida. Gosto tanto desse livro que daria minha biblioteca inteira por ele. Esse amor desmedido talvez encontre explicação na infância que tive, correndo descalço na rua, subindo em árvore e brincando de guerra.
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Eu morava num bairro suburbano e perto de casa havia uma praça que se estendia por uns cinco quarteirões. Esta praça era a fronteira que separava a molecada do bairro de baixo (nós) e a molecada do bairro de cima (os meninos ricos). Havia, na praça, um trecho de terra onde brincávamos de bats - não sei se é assim que se escreve e não conseguiria explicar agora o que era esta brincadeira, mas para dar uma ideia geral pode-se dizer que era uma espécie de adaptação popular e brasileira do beisebol.
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Este trecho de terra era disputado pelos dois grupos de meninos, já que era o único lugar do bairro onde a gente podia jogar o bats sem correr o risco de ser atropelado pelos carros. Por direito, o terreno era nosso, pois estava localizado no trecho da praça mais próximo de nossas casas. Muitas vezes o "inimigo" tentava tomar o nosso território e então declarava-se a guerra. Levávamos essa brincadeira muito à sério.
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Nunca me esqueço dos preparativos na noite anterior ao ataque, quando nos reuníamos no "Quartel General" (que nada mais era do que um terreno baldio defronte à praça, onde fincávamos a nossa bandeira e guardávamos, dentro de uma cabana de papelão, nossos bastões de bats e outras relíquias). A bandeira tinha as cores do time de futebol do bairro: laranja e preta. Ao redor do mastro colocávamos pedras e caixotes que eram as cadeiras e a mesa de reunião. Fazíamos fogueiras para iluminar os encontros noturnos. Escondido no fundo do terreno, atrás do mato, estava nosso "armamento pesado": caixas de papelão abastecidas de mamonas, pedrinhas de barro seco e estilingues.
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Tal e qual no romance de Ferenc Molnar, havia uma hierarquia militar nos grupos. Os generais eram os únicos que podiam entrar em território alheio sem cair prisioneiro. Era tudo formal, dentro da brincadeira consentida. Havia carta redigida e assinada pelos comandantes e tudo. O nosso comandante voltava com a carta assinada pelo general inimigo e anunciava: "É amanhã, às oito, estejam todos a postos". Havia um rápido treinamento militar em nosso território, discutia-se as estratégias, as emboscadas, as funções eram transmitidas. E íamos dormir com aquela expectativa de final de Copa do Mundo.
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Pela manhã, logo cedo, acordávamos com sangue nos olhos e nos reuníamos. E então o comandante dava as ordens e os soldados se espalhavam, tomando pontos estratégicos na praça, para defender o pequeno trecho de terra. Estávamos armados de mamonas e estilingues. Era uma questão de honra.
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As regras do combate eram bem definidas: chorou, está fora; chorar era a morte, a suprema humilhação. Quem fosse desarmado e caísse prisioneiro, não podia mais combater. Os prisioneiros eram conduzidos ao quartel e de lá não podiam sair até o fim da guerra (ou até que a mãe de um prisioneiro viesse resgatá-lo, dando esporro em todo mundo). A brincadeira só terminava quando um dos exércitos reconhecia a derrota e se rendia, diante da superioridade inimiga. A bandeira adversária era confiscada e os prisioneiros libertados.
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Detalhe: a bandeira nunca era devolvida, tinha de ser conquistada novamente - o que fazia nossa guerra nunca ter fim, pois a partir do momento em que um dos grupos tinha a bandeira nas mãos do outro, havia motivo para declarar guerra. Motivo banal, como acontece com as guerras de verdade. E às vezes, esta brincadeira descambava para a violência mesmo, com um bando de moleques rolando no chão e socando uns aos outros. Isso durou dois anos, ou três, ou quatro. Até que fomos crescendo e a brincadeira perdeu o encanto.
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Dias atrás passei pela praça da minha infância e a vi abandonada, tomada pelo mato e pelo silêncio. Onde outrora ficava nosso "quartel", há uma loja qualquer. Algumas árvores, onde nos escondíamos para surprender o inimigo, foram arrancadas. O terreno onde jogávamos bats foi cimentado. As crianças de hoje não podem mais brincar na rua, porque o bairro também se tornou muito perigoso.

Eu, porém, nunca me esqueço dos bravos soldados que morriam e renasciam a cada batalha e que me ensinaram o enorme valor da lealdade. Todos eles foram como Nemecsek, o soldado raso que deu a própria vida pela Sociedade do Betume. Molnar, escritor hungáro, soube como nenhum outro retratar o heroísmo da infância universal. Éramos, sem saber, também soldados da Sociedade do Betume! Vida longa ao nosso Comandante João Boka!