sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Para Grande Otelo
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Lula e Dona Canô
O que repercutiu mesmo foi o modo deselegante com o qual ele se referiu ao presidente de seu país. Esbanjando a arrogância que lhe é peculiar, o músico chamou Lula de cafona e analfabeto. Não fez mais do que repetir o já desgastado bordão preconceituoso da elite, tão senhora de si na certeza de ser a única detentora da inteligência nacional. As declarações foram um prato cheio para a mídia, é claro, ávida de factóides. Mas ainda não é sobre elas que pretendo falar.
Quero falar da dignidade de duas grandes figuras humanas. A primeira é Dona Canô, mãe de Caetano. A centenária senhora e sua sabedoria de velhinha centenária do Nordeste. Assim que as declarações começaram a pipocar, ela mostrou-se chateada. À um jornalista da Bahia, chegou a comentar que não compactuava com a opinião do filho e manifestou o desejo de pedir desculpas ao presidente, em nome da família Veloso.
A segunda figura é o próprio presidente Lula, de certa forma também filho da mesma matéria que forja seres humanos como Dona Canô. Informado sobre a preocupação da matriarca, tomou a iniciativa de ligar para ela, na noite de ontem. A ligação durou menos de cinco minutos. Lula disse saber que Dona Canô estava chateada e quis tranqüilizá-la. “Não fique preocupada, porque gosto muito da senhora e gosto do Caetano também. Está tudo bem, essas coisas acontecem”.
Dona Canô foi dormir tranqüila e emocionada, disse o filho Rodrigo, que estava em casa no momento da ligação e passou a informação adiante.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Os áureos tempos do colonialismo
Às vezes, o preconceito nos é jogado na cara de forma aberta. Mas isso é raro. O brasileiro, como bem dizia Florestan Fernandes, tem preconceito de ter preconceito e jamais admite que está sendo preconceituoso.
O mais comum é que o preconceito brasileiro se manifeste nas entrelinhas do discurso, de forma dissimulada e até educada, como convém ao homem cordial. É quando diz: "ela é negra, mas muito bonita"; ou "ele é negro, mas trabalhador".
O SESC Madureira, ao anunciar a sua programação cultural para a Semana da Consciência Negra, fez muito pior. Atentem para o release (o grifo é meu):
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Prezados,O SESC Madureira desenvolve o projeto Arte de Encontrar que tem como proposta a prática de parcerias entre comunidades populares, instituições públicas, privadas e do terceiro setor. O projeto valoriza o potencial criativo de crianças e jovens de diversas comunidades, propiciando a troca de experiências. Este mês com a temática Consciência Negra: conversando sobre a cultura Banto, com os historiadores (Walter Nkosi e André Lemba); apresentações de danças afro e café servido por mucama, lembrando os áureos tempos coloniais. As instituições poderão participar ativamente apresentando suas produções artísticas, mediante inscrições prévias ou assistindo ao evento. Contamos com a sua presença!
Mostrei o texto a colegas de trabalho, mas eles não identificaram preconceito algum e disseram que eu estava procurando chifre em cabeça de cavalo. Então, para facilitar a vida deles, resolvi trocar os protagonistas da homenagem. Em vez de lembrarmos os áureos tempos do colonialismo, que tal lembrarmos os áureos tempos de Auschwitz?
Legenda: judeus se divertindo nos áureos tempos de Auschwitz
Acho que assim fica mais fácil entender o espírito da coisa. Se ainda estiver difícil, deixo uma sugestão ao SESC Madureira, para que da próxima vez a comunicação seja mais direta. O evento deveria ser divulgado a partir de um cartaz como este:
Legenda: africano se diverte nos áureos tempos do colonialismo
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Doces delicadezas do Brasil
Senhoras e senhores, fosse eu um espírita kardecista e colocaria na lápide do meu túmulo a inscrição: “Vou ali e já volto”. E voltaria mil vezes para o Brasil. Como, porém, me foi reservado outro destino no Orum misterioso, contento-me em viver ao máximo esta minha pequena passagem pela terra da qual levarei, na memória ancestral, somente as delicadezas.Se alguém me pergunta do que mais sentirei saudade, respondo sem titubear: sentirei saudade dos doces brasileiros, responsáveis por adoçar a vida, por vezes amarga, que levamos cá nos trópicos. Saudades do mungunzá, da canjica, da pamonha, do pé-de-moleque, da paçoca – tão queridos nas comemorações de Santo Antônio, São João e São Pedro...
Sentirei saudades da tapioca molhada, da geleia de araçá, do licor de rosa, do sorvete de mangaba, do quindim, da cocada, do suspiro. E também da rapadura, da goiabada com queijo, do pudim de leite, do doce de laranja cristalizado, do doce de abóbora, da ambrosia, do abricó, da marmelada e do sonho-de-freira.
Aprendi a doçura brasileira na cozinha da avó. Fui uma criança suja de açúcar a ajudar no preparo dos quitutes com os quais as visitas se refastelavam no meio da tarde. Hoje, na idade adulta, sigo pecando contra a dieta e contra a nutrição científica, mas não peco contra o paladar: não há banana crua que seja superior em gosto a uma banana assada com canela. Sou devoto do açúcar.
Não por acaso, o livro de Gilberto Freyre que mais gosto não é o clássico Casa Grande & Senzala, mas o pouco lembrado Açúcar – uma sociologia do doce, publicado originalmente em 1939. É a primeira obra a tratar a culinária brasileira como um gesto tão identificador de nossas raízes quanto o samba e a macumba.
Lembro-me, vagamente, de uma preta velha que vi um dia, pregando na zona portuária do Rio de Janeiro, com um tabuleiro repleto de doces. O pregão parecia um lamento africano e trazia certa tristeza numa palavra desconhecida para mim: “Eh, alfenim! Eh, alfenim!”.
Anos mais tarde, descobri que alfenim era uma massa de açúcar que, levada ao forno, podia ser moldada e ganhava formas de peixe, cachimbo, estrela, chapéu ou coração. Ficou sendo, aquela mulher, a personificação da culinária brasileira: doce, ancestral e delicada.
No caso específico dos doces, o que chamamos de “alma do Brasil” parece estar ainda mais presente nas velhas receitas de família. Como diz Gilberto Freyre, “numa velha receita de doce ou de bolo há uma vida, uma constância, uma capacidade de vir vencendo o tempo sem vir transigindo com as modas”.
É assim que eu quereria a minha vida: doce e eterna, como a receita do alfenim que a preta velha ainda apregoa no cais generoso da minha infância.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Como livrar-se dos chatos do telemarketing
Sendo assim, deixo uma dica valiosa a todos aqueles que, como eu, não aguentam mais receber ligações de bancos, empresas de telefonia, escolas de idiomas, instituições de caridade e afins. Trata-se de um sistema de cadastro gratuito para bloquear ligações de telemarketing. O sistema funciona na página do Procon (clique aqui) mas, até onde sei, só está disponível para usuários do Estado de São Paulo.
Após efetuar o cadastro (clique aqui), seus problemas acabaram: seu número não poderá receber nenhuma ligação com ofertas comerciais. Caso isso ocorra, denuncie a empresa junto ao próprio Procon. Provada a infração, a empresa poderá pagar multas dolorosas. Comigo funcionou, pois nunca mais recebi uma mísera chamada desta natureza.
O curioso é o índice baixíssimo de adesão ao serviço. Até o meio deste ano, menos de duzentos e cincoenta mil usuários paulistas haviam cadastrado seus números de telefone. Conclusão: ou a divulgação do serviço foi muito mal feita ou as pessoas que reclamam do telemarketing não se sentem tão incomodadas assim.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Diabo Loiro
O “ladrão romântico” era o seguinte: ele roubava; mas não roubava pobre e jamais atirava pelas costas. Havia, no meio da bandidagem, um "código de ética" a ser respeitado. Não consta, por exemplo, que Diabo tenha matado alguém ao longo de sua carreira.
Criado na favela do Fura Zóio, no bairro onde passei a infância, o nome do Diabo Loiro corria nas bocas. Quando jovem, roubava apenas e tão somente joalherias. Achava imoral que madames pudessem gastar pequenas fortunas para obter pedrinhas de brilhantes enquanto tanta gente passava o maior perrengue. Dizia que nada o ofendia mais que o diamante no colo de uma mulher e o ouro nos dedos de um engravatado.
Não que Diabo tivesse muita consciência política. A maior parte do dinheiro arrecadado nos assaltos era usada em benefício próprio. Mas a imprensa campineira registra pelo menos uma passagem memorável envolvendo o ladrão. Na véspera de Natal, em meados dos anos 70, Diabo acertou a mão num assalto e, escoltado pelas sombras da noite, distribuiu envelopes cheios de dinheiro em cada barraco do Fura Zóio.
Para que vocês tenham uma ideia da fama do Diabo Loiro em Campinas, basta dizer que quando comecei a ouvir histórias a seu respeito, o gatuno já havia sumido do mapa. Mesmo assim, era comum ouvir causos mirabolantes a seu respeito. Até hoje, nas periferias da cidade, seu nome é lembrado em conversas de esquina e sua presença é percebida pelos moradores mais antigos, como se ele fosse um egum rondando o bairro.
As várias versões do seu desaparecimento acabaram criando uma lenda. Apesar de os indícios de seu assassinato serem grandes e desta ser a versão oficial da polícia, há quem jure de pés juntos que Diabo Loiro está vivinho da silva, numa fazenda que teria comprado no Paraguai, à espera de seu comparsa Luiz Carlos do Valle, que ainda cumpre pena.
Luiz Carlos tornou-se parceiro do Diabo Loiro quando roubar joias perdeu a graça e muita gente descobriu que assaltar bancos era uma atividade bem mais lucrativa. Se Diabo era a ousadia em pessoa, Do Valle era o cérebro das operações. Juntamente com Hildemax Rita, que atuava como motorista da dupla, cometeram assaltos cinematográficos em dezenas de agências bancárias. Muitas vezes, nem sacavam as armas; valiam-se da lábia e da inteligência.
Como o regime militar ainda mandava no País, muitos desses assaltos foram confundidos com expropriações de fundo político e investigados como tal. Gente da imprensa quis forçar uma associação do trio aos grupos de esquerda, mas a tática não pegou porque os caras eram apenas bons vivants. O resultado dos assaltos garantia uma longa temporada de luxos e prazeres envolvendo mulheres e bebidas nos lugares mais recônditos da América do Sul. Quando acabava a bufunfa, organizava-se outro assalto espetacular.
Ficou célebre o roubo milionário cometido contra a mansão de Pelé, em Santos. Roubar a casa de um dos ídolos mais populares do país foi um erro crucial. Com a mídia marcando em cima o caso, a polícia foi obrigada a trabalhar em dobro e o trio não teve sossego. Luiz Carlos do Valle e Hildemax Rita caíram juntos, anos mais tarde. Diabo Loiro conseguiu dar linha na pipa. Fugir de polícia, aliás, era a sua especialidade.
Do Valle, cuja ficha era mais extensa do que fila em motel na sexta-feira, recebeu uma pena violenta e amargou mais de trinta anos de reclusão. Resta-lhe algo em torno de dois anos para voltar às ruas. Certa vez, tentei entrevistá-lo no presídio. Através de seu advogado, Luiz Carlos disse apenas que estava velho, cansado, doente e que não lhe interessava falar do passado.
Hildemax Rita passou mais de dez anos preso e aproveitou o tempo ocioso para estudar. Em uma entrevista concedida ao Correio Popular, afirmou ter lido dois mil livros na cela. Suas preferências eram obras de Filosofia e Direito. Ao sair da prisão, formou-se advogado, profissão que exerce hoje, paralelamente à de educador em comunidades pobres de Campinas. Na última eleição foi candidato a vereador, mas não conseguiu se eleger.
José Maria Matoso, ou melhor, Diabo Loiro, virou fumaça. A polícia garante ter matado o ladrão numa troca de tiros acontecida na Bahia. Mas seu corpo foi enterrado com o caixão lacrado, o que suscitou a versão de que sua "morte" fora negociada com a polícia. Em seu lugar, outro infeliz teria ido comer capim pela raiz. É o povo quem diz.
Zeza Amaral, jornalista e compositor campineiro, imortalizou a saga do Diabo em uma extraordinária canção. Ele conta a seguinte passagem:
“Certo dia, eu estou no City Bar e sou abordado por dois homens armados. Eram os seguranças dele. Perguntaram se eu era o Zeza e anunciaram que Diabo Loiro queria ter comigo. Logo depois, ele apareceu, puxou a cadeira, sentou-se e falou: ´É você que fez uma música pra mim? Eu queria que me mostrasse´. Fiquei nervoso, não sabia se ele ia gostar ou não. Mas cantei, batucando no tampo da mesa. Ele ouviu em silêncio e pediu pra eu cantar mais uma vez. Depois levantou, disse que havia gostado muito da música e se foi. Nunca mais o vi”.
A letra de Diabo Loiro segue abaixo. Ela acaba de ser gravada num CD que o batuqueiro Ding Dong dedicou aos compositores de Campinas. Quase quarenta anos depois de ter sido composta, a música ganha sua primeira gravação.
Diabo Loiro
(Zeza Amaral)
Foi num feriado de pobre,
anuviado
Num domingo entardecido
No bairro do Fura Zóio,
hoje Tofanelo
Diabo Loiro era procurado
Por quatro viaturas
Cheias de metralhadoras
E de soldados
E na fuga alucinada
Fugindo da cachorrada
Arrebentou vários varais
Quebrou telha, coisa rara
Fez goteira, coisa velha
Um pingo a mais que ninguém ia notar
Interrompeu uma pelada pelo meio
E salvou um passarinho que no susto escapou do alçapão
Enquanto a torcida berrava: “Foi por ali”
Caminho oposto ao do ladrão
Novamente, Diabo Loiro, perdendo o canivete
Mas ganhando a liberdade que era de estimação
No dia seguinte vai ser manchete pra vender jornal
Na social de ladrão
Jejuados, os bons tempos se passaram
E nem o próprio tempo consegue lembrar
Diabo Loiro maltrapilho e sujo
Se entregou de fome
Como faz todo ladrão
Dizendo que a bala não fere tanto
Quanto a saudade e a solidão
E assim trocou sua vida de gato
Pela vida de cachorro comportado na prisão
Pensão de ladrão
Atualmente ele cumpre penitência na cadeia
Comendo muito mais do que amassou
Porém, Diabo Loiro resistiu, não deu serviço
Com garrancho a promissória de bandido assinou
Que vai ser saudada com juros e sova
Restos de comida e toco de cigarro
Assim, portanto, de outro modo vou chamá-lo
Pois quem sofre o que ele sofre
Discos
(*) Fim de ano chegando e com ele a hora de fazer um balanço de tudo o que ouvi de janeiro pra cá, assim como fiz no ano passado. A lista abaixo tem o objetivo de registrar os CDs que recebi das gravadoras neste 2009. Não tive tempo para fazer a crítica de todos, mas parei para escutá-los, um por um. Deixo uma rápida opinião, sem frescura e sem enfeitar o pavão. De bate-pronto, achei o seguinte:Amanhecer - Paula Mirhan e Wagner Barbosa - MUITO BOM
(*) No detalhe, Geringonça, de Ricardo Teté, que destaco como a surpresa (positiva) do pacote. O melhor disco do ano, para mim, foi Sertão Negro, de Daniel Taubkin, a única obra-prima da lista.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Finalmente, o CD de Armando Moreli
Gosto de samba desde criança. Mas o meu primeiro amigo sambista, o que me fez ter vontade de ser compositor, veio na juventude. Armando Moreli, a quem chamo carinhosamente de Armandinho, me foi apresentado pela cantora Lígia Moreli, sua filha e minha colega de classe na faculdade de jornalismo. Nossa amizade teve início em meados dos anos 90.É verdade que a distância – ele mora em Mogi Guaçu e eu em Campinas – nunca nos permitiu uma relação de intimidade muito grande. Bebemos, nesses quase quinze anos de amizade, algumas poucas vezes. Mas com tanta intensidade que posso afirmar, sem sombra de dúvidas, que Armandinho foi – ainda é – uma das minhas maiores referências quando o assunto é samba e poesia.
No começo deste ano, fui convidado pelo próprio para escrever o texto de apresentação no encarte de seu primeiro CD. Com muita honra, aceitei a missão. Mas com muita humildade para reconhecer que recebi dele muito mais do que dei. Talvez haja nas letras que arrisco, vez ou outra, a influência indireta da pena de Armando Moreli.
Bom, sem enrolar demais, escrevo para anunciar que, amanhã, quinta-feira, este grande compositor brasileiro finalmente irá lançar o seu primeiro CD. Independente, gravado com paciência e com dinheiro do próprio bolso, mas muito melhor do que a maioria dos discos que as grandes gravadoras costumam colocar no mercado. Armandinho é do tempo em que a palavra tinha o mesmo peso que a melodia.
Sem mais, deixo a dica imperdível para quem mora no Estado de São Paulo. Amanhã, quinta-feira, às 20h, Armando Moreli fará o show de lançamento do CD Umas e Outras no Teatro Tupec do Centro Cultural de Mogi Guaçu (Av. dos Trabalhadores, 2651, Jardim Camargo). A entrada é franca. Eu estarei na primeira fila, com Silo Sotil e Tio Beiço, celebrando esta grande noite para a música brasileira.
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terça-feira, 10 de novembro de 2009
O futebol é do povo
Em São Paulo, as arquibancadas do Velódromo, onde ocorreram os primeiros jogos oficiais na cidade, estavam sempre cheias de senhoras e senhoritas. Como registra Marcos Guterman no livro O futebol explica o Brasil, as mulheres se destacavam entre os torcedores no primeiro torneio paulista, disputado em 1902: “Elas ostentavam riquíssimas toillets, formando o adorno da festa”. Já naquele tempo, as mocinhas em flor simulavam desmaios quando o craque do time corria com a bola, garboso como um galã do cinema mudo.
É bem verdade que as primeiras mulheres a frequentar os estádios eram damas da alta sociedade e não se permitiam sair de casa sem um leque na mão direita, para refrescar-se das ondas de calor provocadas pelos jogadores, e um delicado binóculo na esquerda, para não perder nenhum detalhe daquele embate de machos viris. Eram, contudo, moças finíssimas, incapazes de soltar um palavrão durante a partida e que comemoravam a vitória do time tomando uma tacinha de champanhe com os respectivos maridos.
Apesar de tornarem o ambiente do estádio muito mais bonito e perfumado, as mulheres faziam dele algo tão emocionante quanto uma palestra motivacional ministrada pela Marina Silva. Como vinham em grande número, acabavam ditando as regras de comportamento da torcida durante os jogos. A presença feminina impunha aos homens certos limites, sendo o maior deles a ausência total de palavras de baixo calão. Surtos de raiva eram reprimidos, bem como demonstrações exageradas de euforia.
Os cavalheiros, acompanhados de suas damas, não podiam se prestar ao papel ridículo de virarem crianças de bigode. Até desejavam arrancar as gravatas e agitá-las ao vento para comemorar um gol do seu time. Mas não o faziam porque eram, afinal, senhores respeitáveis da elite paulista e carioca. O futebol era um esporte bretão, inventado pela gente fina da Inglaterra, não comportando a emoção inadequada que desde sempre manteve o Brasil no atraso e no subdesenvolvimento.
A coisa começou a mudar de figura no momento em que o povão descobriu que o futebol era um jogo e tanto. Com gente do povo disputando espaço com as famílias da classe alta, os estádios se tornaram ambientes muito mais divertidos. O primeiro sintoma de que a paz dos senhores e das senhoritas começaria a ser perturbada foi quando, em 1904, num jogo entre São Paulo Athletic e Germânia, o Jornal do Commercio registrou com espanto a ocorrência de vaias e ofensas:
“Antes de terminarmos essa notícia, temos de fazer uma grave censura a grande parte dos espectadores que assistiram ao match de ontem. Esses assistentes, por diversas vezes, vaiaram jogadores e juiz, quando algum fato por eles praticado não era de seu agrado e, o que mais nos dói dizer (oh! Vergonha) notamos com grande sentimento que até rapazes de outros clubes, cegamente interessados pela vitória de um ou outro team, para a boa colocação daquele a que pertencem, também se excediam, fazendo protestos pouco dignos de suas posições. Esperamos que tão reprováveis cenas não se repitam, sob pena de não haver mais quem aceite o cargo esse interessante esporte, e isso, afinal de contas, pela má orientação do público”
Antes que a massa se tornasse uma realidade irresistível no futebol brasileiro, o cavalheirismo nas arquibancadas refletiam a intenção declarada de fazer deste esporte um evento excludente, voltado para as elites. Vejam, por exemplo, o que dizia o livro Cousas do football, escrito em 1920 pelo árbitro Odilon Penteado do Amaral:
“Si procederdes cavalheiramente para com vosso adversário, para com os assistentes, e acatando todas as decisões dos dirigentes da pugna, tendes demonstrado possuir uma alevantada educação e, com isso, não restará a menor dúvida de que o transcurso do match será infalivelmente prenhe de lances belíssimos. Tão pronto tenhaes maguado um vosso leal adversário, atingindo-o casualmente com o pé, numa rebatida falsa, não vos demoreis em solicitar-lhe desculpas pelo incidente, pois ele, cavalheiro que é, não se lastimará por certo em reconhecer a involuntariedade da falta. Deveis empregar os vossos melhores esforços para evitar toda e qualquer discussão em campo, ou fora delle – quer com os vossos adversários, quer com os vossos próprios companheiros. Deveis egualmente, abster-vos de gesticular, ou levantar os braços para o alto, com o propósito de reclamardes, quer contra o juiz, quer contra os vossos companheiros por não passarem a pelota. Elles saberão o que estão fazendo. Tendes, pois, paciência. Quem assim não proceder, demonstra ser muito indisciplinado”
Felizmente, não tardou para que o futebol, antes exclusivo dos brancos da classe alta, fosse a grande paixão dos negros e brancos pobres. Ao ganhar contornos mais populares, o esporte não apenas evoluiu como tal dentro das quatro linhas do campo; evoluiu também como evento, podendo ser considerado um dos traços culturais definidores de nossa identidade brasileira. Se, no tempo em que foi privilégio das elites, o futebol era apenas uma reprodução mal feita do jogo que era jogado pelos europeus, ganhou um estilo tipicamente brasileiro, fruto da miscigenação, quando foi apropriado pelo povo.
É a esta maravilhosa entidade chamada Povo Brasileiro que agradeço todas as vezes em que me vejo sentado numa arquibancada, com o dedo do meio apontado para o bandeirinha e as veias do pescoço saltadas ante o grito libertador, que lava a alma e nos redime de todas as injustiças: “Filho da pu-ta! Filho da pu-ta! Filho da pu-ta!”.
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domingo, 8 de novembro de 2009
Já vi essa história...
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
RAPIDINHAS
"No atabaque da esquerda meu pai batendo o som que eu já estava acostumado há tempos. No centro da gira, entre tantos outros, minha mãe, penas e pemba. Quando cheguei a este mundão, foi o Caboclo Pena Dourada quem riscou o chão e que me levou pra mata; foi ele quem me bafarou na cara o charuto do limpamento e que me assoviou no ouvido as coisas que sei-não-sei." (Leia aqui)
"Ando cabreiro com algumas coisas que estão acontecendo nas ruas cariocas. Aqui perto de casa, por exemplo, as notícias não são das melhores. Um botequim que costumo frequentar, o Bar do Chico, inventou uma reforma meio mandrake, que incluiu pizza no cardápio, visual moderninho, garçom de gravata e, é claro, aumento dos preços dos produtos. Botequim, já não é mais. Periga virar um playground de bêbados com rodízio de pizza depois das seis da tarde" (Leiam na íntegra)
"A pizza é como dinamite para um buteco. Pintou a pizza na área, pronto: implode-se o buteco. Aquilo virou, e digo isso com profunda dor, eis que bebíamos ali domingo após domingo, o anti-buteco" (Leiam na íntegra)
"O canalha que disse isso deve ser um corno (exaltado). Porque o canalha, ao invés de cuidar da vida dele, cuida da vida dos outros. O sambão joia não existe, nunca existiu. O que é sambão joia? Você sabe o que é isso? Não é porra nenhuma, porque eu nunca disse que fazia essa merda aí. O que faço é samba, somente samba" (Leiam na íntegra)
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Exu e intolerância religiosa
Nas religiões afro-brasileiras, Exu é o mensageiro entre o Céu e a Terra (entre o Orum e o Ayiê, como dizemos no Candomblé). É o único orixá com liberdade para circular nas duas esferas. Por esta razão, Exu apresenta, entre suas inúmeras virtudes, também numerosos defeitos ou vícios humanos. Sua personalidade contraditória e imprevisível talvez ajude a explicar a associação equivocada que a Igreja Católica, ainda no tempo das caravelas, fez entre Exu e o Diabo.Longe de ser um demônio, Exu é uma energia vital, presente em todas as coisas que se movem. Sem a sua energia, quase nada seria possível. Exu não é bom e nem mau, posto que o Candomblé desconhece o maniqueísmo. Exu é simplesmente a fagulha que detona os grandes acontecimentos, seja ele o nascimento de uma criança ou a guerra mais sangrenta. Os conceitos de Bem e Mal, para o povo-de-santo, não existem; pelo menos, não da forma como os cristãos concebem tais valores.
Exu não é santo, não é diabo, não é espírito. Exu é um orixá, ou seja, uma divindade mitológica africana. E é também um princípio. Nenhuma entidade, como ele, foi vítima de tanto preconceito ao longo da história. Quando o povo brasileiro ainda estava sendo formado, lá pelos idos da escravidão, o culto a Exu foi proibido pela Igreja. Relegado ao submundo dos porões e dos becos mais escuros, acabou ganhando uma conotação de culto macabro, misterioso, feito nas sombras da noite. Puro preconceito. Nada ou ninguém pode ser mais solar e festivo do que Exu.
E ainda hoje, se os senhores querem saber, Exu é o alvo maior do preconceito que recai sobre a religião de milhões de brasileiros, dentre os quais me incluo. Grande parte deste preconceito, sem dúvida a maior, vem atualmente das igrejas neopentecostais que estão proliferando no País, sobretudo nos lugares mais pobres – onde é mais fácil colocar em Exu a culpa pela miséria, pela prostituição, pelo desemprego, pelo alcoolismo...
Não faz muito tempo, a professora Maria Cristina Marques, que leciona Literatura Brasileira em uma escola de Macaé, município do Rio de Janeiro, foi proibida pela diretora de trabalhar com seus alunos as histórias do ótimo livro Lendas de Exu, de Adilson Martins, recomendado pelo Ministério da Educação (MEC). Mary Lice Petrilo, a diretora, é evangélica. Além de proibir sua funcionária de apresentar aos alunos lendas afro-brasileiras – lendas que, aliás, trazem ensinamentos e valores morais belíssimos – espalhou provérbios bíblicos na sala dos professores, com a intenção de "salvar" a alma de Maria Cristina, que é umbandista.
De nada adiantou. A professora, acertadamente, entrou com notícia-crime no Ministério Público e denunciou a diretora da escola, por se sentir vítima de intolerância religiosa. Ela não estava trabalhando questões religiosas dentro de sala de aula, mas literárias e culturais. Mesmo assim, não se livrou das humilhações que sofreu por parte da direção – Petrilo acusou Maria Cristina de estar fazendo apologia do diabo.
A nota à imprensa, publicada pela Secretaria de Educação de Macaé, toma providência enérgica e justíssima contra o ato de intolerância. O conteúdo, na íntegra, pode ser lido no blog do escritor e compositor Nei Lopes (clique aqui). Para saber mais sobre o lamentável caso, acessem o portal online do jornal O Dia (cliquem aqui)
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Laroiê, Elegbara!
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
ANIVERSÁRIO DO SIMAS
Hoje é aniversário do Simas e, enquanto escrevo estas linhas, sinto saudades ancestrais do Rio de Janeiro e de seus botequins mais vagabundos; do cheiro do tempo impregnado em seus portões, muros e sobrados; da umidade a exalar o perfume marinho das pedras limosas; dos ventos litorâneos que trazem gaivotas consigo; da santa preguiça que celebramos no cair da tarde, batendo perna atrás de uma cerveja gelada que possa ser dividida com um velho ou novo amigo.
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Como hoje é dia dos mortos e, no entanto, estamos vivinhos da silva, deixo-lhes um texto do aniversariante. Nele, Simas fala sobre o impacto que a descoberta da morte, com sua palidez de estátua e seus chumaços de algodão no nariz, causa à nossa infância. O Primeiro Cadáver é, desde já, obra de antologia:
“Não há nada mais impactante na vida de uma criança do que o cadáver inaugural. Sim, o primeiro cadáver é definitivo. Todos os outros passam a ser meros coadjuvantes – é a imagem do primeiro defunto, que se transformará quase certamente no primeiro fantasma, que levaremos pelo resto de nossas vidas” (Leia na íntegra clicando aqui)
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PS: A foto que ilustra esta homenagem foi roubada do Buteco do Edu, de meu não menos querido Eduardo Goldenberg
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Santa Bárbara

terça-feira, 27 de outubro de 2009
DARCY RIBEIRO
"uns latinos tardios de além-mar, amorenados na
fusão com brancos e com pretos, deculturados das tradições de suas matrizes ancestrais, mas carregando sobrevivências delas que ajudam a nos contrastar tanto com os lusitanos"
"Isso se dá quando milhões de pessoas passam a se ver não como oriundas dos índios de certa tribo, nem africanos tribais ou genéricos, porque daquilo haviam saído, e muito menos como portugueses metropolitanos ou crioulos, e a se sentir soltas e desafiadas a construir-se, a partir das rejeições que sofriam, com nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros"
"Tudo isto é duvidoso demais frente ao fato do que aqui se fez. E se fez muito, como a construção de toda uma civilização urbana nos séculos de vida colonial, incomparavelmente mais pujante e mais brilhante do que aquilo que se verificou na América do Norte, por exemplo. A questão que se põe é por que eles, tão pobres e atrasados, rezando em suas igrejas de tábua, sem destaque em qualquer área de criatividade cultural, ascenderam plenamente à civilização industrial, enquanto nós mergulhávamos no atraso"
"Na verdade das coisas, o que somos é a nova Roma. Uma Roma tardia e tropical. O Brasil é já a maior das nações neolatinas, pela magnitude populacional, e começa a sê-lo também por sua criatividade artística e cultural. Precisa agora sê-lo no domínio da tecnologia da futura civilização, para se fazer uma potência econômica, de progresso auto sustentado. Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da terra"
"Portanto, não se iluda comigo, leitor. Além de antropólogo sou homem de fé e de partido. Faço política e faço ciência movido por razões éticas e por um profundo patriotismo. Não procure, aqui, análises isentas. Este é um livro que quer ser participante, que inspira a influir sobre as pessoas, que aspira a ajudar o Brasil a encontrar-se a si mesmo" (O Povo Brasileiro)
"Gostaria de ficar na memória das pessoas pedindo que sejam mais brasileiras. Digam que me amam porque eu amo vocês. Eu quero é agora""Esse é o caso do culto a Iemanjá, que em poucos anos transformou-se completamente. Essa entidade negra, que se cultuava a 2 de fevereiro na Bahia, foi arrastada pelos negros do Rio de Janeiro para 31 de dezembro. Com isso aposentamos o velho e ridículo Papai Noel, barbado, comendo frutas européias secas, arrastado num carro puxado por veados. Em seu lugar, surge, depois da Grécia, a primeira santa que fode. A Iemanjá não se vai pedir a cura do câncer ou da Aids, pede-se um amante carinhoso e que o marido não bata tanto"