Tenho fugido, como o diabo da cruz, de ambientes dominados pela pose. Isto explica, por exemplo, meu sumiço de bares que eu costumava freqüentar (não abolirei o trema!). Vira e mexe, na rua, encontro conhecidos que me fazem o mesmíssimo comentário: “Está sumido, hein?”. E eu, obedecendo a lógica do troço, respondo sempre igual: “Sumi não, estou por aí, quem sumiu foi você”. A conversa então se arrasta por dois ou três minutos, o meu conhecido tergiversa sobre o trabalho ou sobre o casamento, e logo estamos seguindo nossos rumos, cada um para o seu lado.
Há coisa de três ou quatro anos, talvez cinco, dei-me este presente: romper com lugares desprovidos de humanidade ou que negam o Brasil, por preconceito ou babaquice. Como os ex-butecos (que viraram “cult” e passaram a ser freqüentados por um público que antes tinha nojo de lugares como estes). Em Campinas, os ex-butecos crescem num ritmo alucinado. Está virando moda beber em pé-sujo. O problema é que, quando freqüentado por um tipo de gente que não está habituada às regras de civilidade destes ambientes, a casa acaba se adaptando à esse tipo de gente (é a força da grana!), fazendo com que seu público antigo e fiel perca o seu único refúgio. Descaracterizado, o ex-buteco sobe o preço da cerveja, promove reformas que descaracterizam o prédio, acaba com a pendura (até para os clientes mais velhos), as mulheres passam a ser alvo de cantadas, brigas ocasionais acontecem, enfim, perde-se o clima de clube. Mesmo as conversas, nas mesas, mudam de tom. O ambiente é dominada por uma atmosfera consumista e o excesso de alegria que acaba afastando o boêmio triste e solitário, que antes ficava no seu cantinho, tomando seu conhaque em silêncio, esperando a aproximação de um ombro solidário e conselheiro.
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Também estão incluídos no meu pacote de idiossincrasias os bares da moda (aqueles que abrem e fecham com a mesma rapidez, se orgulham das filas e dos seguranças na porta), bares de grife (que se orgulham de sua clientela elitizada), festas temáticas (mania babaca da nossa classe média), baladas de música eletrônica, vernissages, intervenções teatrais etc. A lista é interminável.
Outra coisa que não me pega mais: projetos culturais. Se o sujeito me convidar para conhecer um “projeto”, invento uma desculpa e não vou. Roda de samba, pra mim, só no quintal de casa ou no buteco freqüentado pelo povo do bairro (buteco, enfim, que não saiu na coluna da revista Metrópole e continua desfrutando as delícias do anonimato). Busco ser, o mais que possível, um homem de hábitos simples, cercado apenas de boas pessoas.
Raramente saio de casa para ouvir música em barzinho, pagar couvert, enfrentar fila, essas coisas. A revelação pode magoar os meus amigos músicos, que afinal vivem disso; mas esclareço que o meu problema não é com a música, mas com a pose que paira, como nuvem de enxofre, sobre estes ambientes. Há exceções, é claro, mas prefiro não dar nomes, para não queimar a língua. Tudo isso para lhes dizer que começa hoje a FLIP. E para recomendar a leitura do texto do
Eduardo Goldenberg. É isto, exatamente isto, o que eu penso sobre a pose:
Começa hoje, quarta-feira, em Paraty, a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty). Dirão vocês que já venho eu disposto a falar mal de mais um evento. Acertaram. Implico com a FLIP desde a primeira edição. Quando li FLIP nos jornais, lembro-me bem, disse de mim para mim:.
- Feira de Livros de Paraty.
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Quando li que não era uma feira, mas uma festa - emburrei.
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Tenho profunda implicância com essas festas.
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Nem cheguei a lhes contar (faço brevíssima digressão) mas no começo do mês estive, por absoluta impossibilidade de não-estar, na festa junina promovida pelo Banco da Providência no JOCKEY CLUB, na Gávea. Meus poucos mas fiéis leitores, fui um triste do instante em que pisei na dita festa ao instante em que de lá (aliviadíssimo) saí. Assim que atravessei uma fila de Fla X Flu (eu já tinha o convite), dei de cara com um - tirem as crianças da sala - "lounge caipira". Dezenas de pufes de couro branco com dezenas de meninos e meninas vestindo roupas de grife, bonés com as abas pra trás e tênis os mais reluzentes, estirados e à vontade no tal "lounge caipira" eram o cartão de visita para quem, como eu, se aventurava à festa chamada (tirem, mesmo, as crianças da sala!) "ROÇA IN RIO". Notem a anti-brasilidade permanente. E era o que eu queria lhes contar sobre o (pausa para o pigarro e a golfada imaginários) evento: não havia ali, naquela centena de metros de quadrados, uma mísera sombra de Brasil. Fui ao uísque assim que cheguei (eu precisava de algo para me manter, digamos, sob controle). Passei por uma fogueira patética de cartolina e papel celofane fazendo o papel do fogo. Dezenas de pessoas formavam fila (outra, outra) para uma foto diante do horror. Deu-me uma aguda saudade das festas juninas de minha infância, muitas delas no CLUBE 34, em Campo Grande. A criança estava, entretanto, dentro e apenas dentro de mim. Os robôs que circulavam atônitos à minha volta não sabiam, eis a verdade, nada sobre o Brasil, nada sobre São João, nada sobre Santo Antônio, nada sobre nossas mais bonitas tradições. Prova cabal do horror coletivo (eu, careta, me perguntava a cada cinco minutos pelos pais daquelas moças de - o quê?! - 14, 15, 16 anos, semi-nuas e de mãos dadas, umas com as outras, e vi beijos de moça com moça, de moças-meninas com rapazes nem-tanto, e ouvi conversas que me quebraram a alma, e nem mesmo as três doses de Red Label sossegaram meu periquito) foi o seguinte: em determinado momento (acho que eram onze da noite) começou o funk. E aquela horda, que torcia o nariz com boquinha de nojo pras canções tradicionais das festas juninas que tocavam através de gravações horríveis em altíssimo volume, foi à pista e eu fui pra casa arrasado, com o menino que fui, de calças curtas e chapéu de palha, enterrado em mim. Dito isso, volto à FLIP.
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O que haverá de hoje a domingo na fabulosa cidade de Paraty?
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Pose. Pose. Pose.
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Posso garantir a vocês que haverá gente desse tipo (como li n´O GLOBO de hoje). Pausa: eu poria a imagem da notícia aqui para vocês verem e lerem, mas parece que por represália de membros do PSOL, revoltados com o que tenho escrito, não consigo mais acessar o site do jornal na íntegra (eu tinha uma senha que não funciona mais). Vejam:
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"Gay Talese bateu pé e mudou de pousada assim que chegou a Paraty. Tudo por conta do guarda-roupa, que era pequeno e não comportava os seis ternos e as muitas camisas. O escritor mais elegante da Flip, que é filho de um alfaiate, exigiu um espaço maior para pendurar organizadamente suas roupas..."
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Quem gosta de livros elege sua livraria do coração, lá compra seus livros e os lê (eu tinha a minha, deixei de ter por obra e graça de uma pérfida atitude que não cabe aqui). Mas compro meus livros por aí e os leio em silêncio - e os releio, troço muito mais importante que a simples primeira leitura.
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O povo que vai à FLIP babar o ovo do filho do alfaite, por exemplo, vai apenas para exibir sua pose e engrossar a cambada de pavões em flor que interdita a cidade histórica.
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Disputam ingressos para "as mesas". "As mesas" é como são chamados, pelos descolados que para lá se deslocam, os geralmente insuportáveis debates literários onde o espirro de um romancista tem o peso de um grande sertão. Dou-lhes um exemplo: em recente entrevista, a escritora irlandesa Edna O'Brien disse (essa frase genial...):
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- Escrever é como sonhar.
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Se essa senhora repetir a mesmíssima enfadonha frase em Paraty a baba da estupefação ignorante escorrerá do queixo dos descolados que aplaudirão, numa explosão histérica, esse lugar-comum.
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Correm pra lá e pra cá com seus livros debaixo dos braços, os descolados, em busca de um autógrafo, de uma fotografia, de um momento de falsa intimidade com o escritor.
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De hoje a domingo, meus poucos mas fiéis leitores, Paraty será a capital nacional da babaquice.Muita gente, muita pose, muita festa - aposto que quase nenhum leitor.
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Até.